O QUE É POESIA?

bacanas,
 
o poeta edson cruz, via e-mail, enviou a vários outros poetas uma pergunta que, metaforicamente, é um tiro à queima-roupa, uma pergunta que, ao meu ver, é das mais difíceis, se não, das impossíveis, de serem respondidas:
 
o que é poesia?
 
como não existe uma “regra”, uma “receita”, para o fazer poético, as respostas são as mais variadas.
 
junto à principal, duas outras perguntas que interessam: àqueles que desejam seguir a trilha de escritor / poeta; àqueles que adoram ler, pois os bardos citam 3 poetas e 3 textos referenciais para o seu ofício poético.
 
escolhi cinco poetas dos quarenta e cinco reunidos no livreto. o bom é que posso, no decorrer do tempo, compartilhar com vocês as outras tantas respostas.
 
antes das respostas, parte do texto de apresentação do livro, com o qual concordo inteiramente.

desfrutem os frutos, os furtos poéticos das linhas anunciadas.

beijo terno em vocês,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
__________________________________________________
 

 
(trecho do texto de apresentação do livro O que é poesia?)
 
 
POETAS À QUEIMA ROUPA (autor: Edson Cruz)
 
As perguntas mais ingênuas, e legítimas, são sempre as mais espinhosas e difíceis de responder. Quando você pergunta a um marceneiro o que é marcenaria, ele, quase sempre, sorri satisfeito com a possibilidade de discorrer sobre sua arte e, quem sabe, seduzir mais um neófito para seu ofício tão amado. O mesmo pode ser válido para outros artistas, por exemplo, um ator. O que é teatro?, você dispara, e ele mata a bola no peito e ainda faz várias embaixadinhas antes de responder, falastrão.
 
Ainda que todas as artes tenham a sua especificidade e complexidade, os escritores — e, particularmente, os poetas — acreditam que a sua seja a mais complexa e inescrutável de todas. Bafejados pelas musas, os escritores são os seres mais suscetíveis do planeta. E os poetas, minha turma preferida, são a essência cintilante do que denominamos escritor. E dá-lhe suscetibilidade, pois eles carregam a responsabilidade, ou a pretensão, de serem a antena da raça. E, cá pra nós, muitos realmente o são.
 
(…)
 
A poesia é de longe, pelo menos para os poetas, a linguagem de maior potência de significação (“a mais condensada forma de expressão verbal”, dizia Pound), e não é de espantar a variedade de percepções, de leituras, de idiossincrasias, de práticas que permeiam a poética contemporânea e, evidente, a sua recepção. Tão diversas como o são os próprios seres e seus interesses.
 
(…)
__________________________________________________________________________
 
(do livro: O que é poesia? autores: Vários. organização: Edson Cruz. editora: Confraria do Vento / Calibán.)
 
 
  
AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA
 
 
O que é poesia para você?
 
Poesia é o espanto transverberado.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
A mesma coisa que qualquer iniciante em qualquer matéria ou profissão. Iniciar sempre, até o fim. Ou, no caso da poesia, desconfiar dos que oferecem a receita da “verdadeira” poesia.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Poetas: O rei Davi, salmista; Camões, o lírico; Drummond.
 
Textos: A Bíblia; cartas e ensaios de Mário de Andrade; Introdução à metafísica de Heidegger.
 
 
 
ANTONIO CICERO
 
 
O que é poesia para você?
 
A poesia é o que faz de um “poema” um poema; ou, o que dá no mesmo, é o que faz de um poema um poema bom. Também se pode dizer: é a propriedade do poema enquanto poema. É a propriedade que torna um objeto — em particular, um objeto verbal — algo que, mesmo sendo inútil, mereça existir. Se fosse possível descrever essa propriedade, seria possível dar uma receita de poema. Isso, porém, é impossível. Como diz Montaigne, é mais fácil produzir poesia do que conhecê-la. “Em certa medida baixa”, afirma ele, “pode-se julgá-la pelos preceitos e pela arte [isto é, pela técnica]. Mas a boa, a excessiva, a divina está acima das regras e da razão”. É que a razão é apenas uma das faculdades humanas; ora, a poesia é produzida e apreciada com todas as faculdades humanas, inclusive as não-racionais, elevadas ao seu mais alto grau.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Acho que há diferentes caminhos. Penso, porém, que o mais importante é, em primeiro lugar, aprender a ler e apreciar poesia. E isso se faz, em primeiro lugar, através da leitura intensiva dos grandes poemas da tradição. É através deles que se sabe o que é a poesia.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Citarei Horácio, T.S. Eliot e Drummond. Digamos o poema 7 do livro IV das Odes de Horácio; o poema “East Coker”, de Four quartets, de T.S. Eliot; “Coração Numeroso”, de Alguma poesia, de Drummond. São três obras-primas. Admiro imensamente seus autores. Todos são mestres insuperáveis da forma, da sutileza, da malícia… Horácio, por exemplo, usa todos os recursos da língua, como, por exemplo, a liberdade da ordem das palavras, em latim, para multiplicar maravilhosamente os sentidos de cada verso, de cada palavra, de cada estrofe. Ele é intraduzível, de modo que aprendi a apreciá-lo tarde, quando estudei a sério o latim. Cito T.S. Eliot porque foi através dele que me imbuí, na adolescência, dos ritmos da poesia moderna. E não é necessário explicar a escolha de Drummond. Ele e Pessoa são, para mim, o máximo da poesia moderna em português, e tão grandes quanto qualquer outro poeta, de qualquer outra língua.  
 
 
 
AUGUSTO DE CAMPOS
 
 
O que é poesia para você?
 
De preferência, a poesia dos outros. E o que é poesia?
 
Respondendo à pergunta “o que é música?”, Schoenberg saiu-se com esta historinha:
 
Um cego perguntou ao seu guia: — Como é o leite?
O outro: — O leite é branco.
O cego: — E o que é esse “branco”? Me dê um exemplo de algo que seja “branco”!
O guia: — Um cisne. Ele é totalmente branco e tem um pescoço longo e curvo.
O cego: — Pescoço curvo? Como é isso?
O guia, imitando a forma do pescoço do cisne com o braço, fez com que o cego o apalpasse.
O cego: — “Ah! agora eu sei como é o leite”…
 
Bom, para não desanimar o leitor, dou duas definições de poesia de dois outros cegos:
 
Paul Valéry: “Hesitação entre o som e o sentido”.
 
Ezra Pound: “Uma espécie de matemática inspirada que nos dá equações não para imagens abstratas, triângulos, esferas, etc, mas equações para emoções humanas”.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Perseguir implacavelmente a si próprio. Jamais perseguir o sucesso.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
“Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, de Stéphane Mallarmé. Inaugurou a poesia do século 20 e continua a presidir o espaço poético-cyberal.
 
Finnegans Wake, de Joyce, panAroma das flores da fala, telescopagem vocabular, racionalidade do caos.
 
Os Cantos, de Pound, montagem-colagem-ideograma, estratégias básicas para a poesia de nosso tempo. 
 
 
 
CARLITO AZEVEDO
 
 
O que é poesia para você?
 
Algo tão generoso que às vezes até se dá ao trabalho de aparecer uma ou duas vezes num bom livro de poemas.
 
Desde a invenção do cinema ela também tem gostado de dar as suas caras na grande tela, principalmente em filmes de René Clair, Jean Vigo, ou naquele, belíssimo, de Jean Cocteau, em que Orfeu, antes de dar o primeiro passo inferno abaixo, em busca de Eurídice, pronuncia as palavras mágicas: “O espelho deveria refletir um pouco mais antes de nos devolver a nossa face”.
 
Hokusai, que sabia do que ela era feita, às vezes a colocava numa onda, num galo, numas mulheres atravessando uma ponte. 
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Sapos de verdade em jardins imaginários, como queria Marianne Moore.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Em primeiro lugar, vou avisando que é uma escolha prospectiva, e não retrospectiva. Em vez de falar do que é uma referência para o que eu fiz, vou falar do que é uma referência para o que eu quero fazer. Ah, e em vez de “explicar” a minha escolha, prefiro “ilustrar” a minha escolha, por isso, cada poeta será acompanhado por um poema de sua autoria. Lembrei agora de uma menina japonesa que vi na exposição de Miró, anos atrás, e que diante do namorado que pedia que ela lhe “explicasse” Miró, pois ele, ao fim da exposição, não tinha entendido nada, respondeu apenas que se ele já tinha visto os quadros e não entendia nada, não adiantava explicar, porque o que ele ia entender era a explicação e não os quadros.
 
Susana Thénon, a notável poeta argentina nascida em 1935, e falecida aos 56 anos. Utilizo aqui a ótima tradução feita por Angélica Freitas e publicada na Modo de usar & co digital:
 
— onde é a saída?
— desculpe?
— perguntei onde é a saída
— não
não há saída
— mas como se eu entrei?
— claro
lembro de você
e além disso a vejo
mas saída
saída não há
viu?
— mas não pode ser
vou sair por onde entrei
— não
já está muito tarde
desde as dez a entrada está proibida
e além disso o que você quer? que me façam uma
lavagem
cerebral
por deixar uma pessoa sair
pela entrada?
— escute
deve haver uma maneira de chegar à rua
— já perguntou em informações?
— sim
mas me mandaram vir aqui
— pois é
e eu estou dizendo que não há saída
— onde é o telefone?
— vai ligar para quem?
— para a polícia
— aqui é a polícia
— mas você está louco? aqui é uma sala de
concertos
— isso até uma hora
depois é a polícia
— e o que vai acontecer comigo?
— depende do delegado de plantão
se for Loiácono
pode te deixar barato
e em menos de alguns dias você está fora
— mas isso é uma loucura
onde estão as outras pessoas?
— setor de detidos
primeiro subsolo
— por que
estão fazendo
isso?
— vamos tia
não me diga que nunca foi a um concerto
 
Frank O’Hara, o incrível poeta norte-americano, morto tão jovem (aqui em tradução da poeta Luiza Franco Moreira que saiu na Inimigo Rumor 9):
 
UMA COCA-COLA COM VOCÊ
 
é ainda melhor que uma viagem a San Sebastian,
     [Irun, Hendaye, Biarritz, Bayonne
ou que ficar enjoado na Travessera de Gracia em
     [Barcelona
em parte porque nessa camisa laranja que você parece
     [um São Sebastião melhor e mais feliz
em parte porque eu gosto tanto de você, em parte
     [porque você gosta tanto de iogurte
em parte por causa das tulipas laranja fluorescente
     [contra a casca branca das árvores
em parte pelo segredo que nos vem ao sorriso
     [perto de gente e de estatuária
é difícil quando estou com você acreditar que
     [exista alguma coisa tão parada
tão solene tão desagradável e definitiva como
     [estatuária quando bem na frente delas
na luz quente de Nova York às quatro da tarde nós
     [estamos indo e vindo
de um lado para o outro como a árvore respirando
     [pelos olhos de seus nós
e a exposição de retratos parece não ter nenhum
     [rosto, só tinta
de repente você se surpreende que alguém tenha se
     [dado ao trabalho de pintá-los
                                                                      olho
pra você e prefiro de longe olhar para você do que
     [para todos os retratos do mundo
exceto talvez às vezes o Cavaleiro polonês que de
     [qualquer maneira está no Frick
aonde graças a Deus você nunca foi de modo que eu
     [posso ir junto com você a primeira vez
e isso de você se mover tão bonito mais ou menos
     [dá conta do Futurismo
assim como em casa nunca penso no Nu descendo
     [a escada ou
num ensaio em algum desenho de Leonardo ou
     [Michelangelo que costumava me deslumbrar
e o que adianta aos Impressionistas tanta pesquisa
quando eles nunca encontraram a pessoa certa para
     [ficar perto de uma árvore quando o sol baixava
ou por sinal Marino Marini que não escolheu o
     [cavaleiro tão bem
quanto o cavalo
acho que eles todos deixaram de ter uma
     [experiência maravilhosa
que eu não vou despediçar por isso estou te
     [contando
 
Bertolt Brecht (poema da antologia organizada e traduzida por Paulo César Sousa e publicada pela Editora 34):
 
A DESPEDIDA
 
Nós nos abraçamos.
Eu toco em tecido rico
Você em tecido pobre.
O abraço é ligeiro
Você vai para um almoço
Atrás de mim estão os carrascos.
Falamos do tempo e de nossa
Permanente amizade. Todo o resto
Seria amargo demais
 
 
 
RICARDO SILVESTRIN
 
 
O que é poesia para você?
 
Um texto da função poética da linguagem. Ver o meu artigo “Balanço, mas não caio”. Ali, está uma explicação clara e um pouco rápida sobre essa função.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Deve ler boa poesia e bons ensaios a respeito do tema poesia (Roman Jakobson e as funções da linguagem, Haroldo de Campos em A arte no horizonte do provável, Décio Pignatari em Comunicação poética, Octavio Paz no Signos em rotação…). Ou seja, deve se ocupar de ler bons poetas para ver o fazer dos outros e também se ocupar do pensar sobre a arte da poesia, tanto sozinho como acompanhado pelos bons pensadores / poetas / críticos. Também conta fazer cursos e/ou oficinas com bons poetas. Tudo isso para perseguir a criação de, primeiro, um bom poema. Depois, um bom poema que tenha as contribuições pessoais à contemporaneidade e, por último, se conseguir, alguma contribuição à história do gênero poético.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Fiz três trios:
 
Bandeira/ Drummond/ Quintana — esse trio foi o primeiro time que me fez entender o que é um bom poema. Comecei a escrever depois que li o Bandeira. Até hoje, ele é o poeta que mais me encanta. Equilibra invenção, ideia e sensibilidade. Uma boa leitura é essa dos 50 poemas escolhidos, seleção feita por ele, reeditada recentemente pela Cosac Naify.
 
Chacal/ Leminski/ Alice Ruiz — esse foi o segundo trio que me reabriu a cabeça. Com eles, encontrei uma linguagem mais próxima da minha geração e da minha visão de mundo. Ler o Belvedere, reunião de poesia do Chacal, lançada pela Cosac, Dois em um, com os dois livros Pelos pelos e Vice-versos da Alice, lançado recentemente pela Iluminuras, e Caprichos e relaxos, Distraídos venceremos… e tudo o que achar do Leminski. Valem também os ensaios do Leminski, as biografias que ele escreveu de Bashô, Cruz e Souza…
 
Augusto/ Haroldo/ Décio — esse trio chuta a bola para outros campos, amplia a cabeça de qualquer poeta. Ler Viva vaia do Augusto, Não, Despoesia, todos do Augusto, Poetc., Poesia, pois é poesia, do Décio, A educação dos 5 sentidos, do Haroldo. E também vale tudo o que eles lançaram de teoria e tradução.
 
E sobram ainda os simbolistas, com o quarteto Rimbaud/ Mallarmé/ Verlaine/ Baudelaire, sobram Marcial, Bashô, Issa, Ferreira Gullar, Cabral, Emily Dickinson, Benedetti, Borges…
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3 Respostas

  1. achei muito legal +

    • bom saber, ayslanne!

  2. [...] do livro em questão. para quem não as conferiu e deseja acessá-las, segue o link: //   https://prosaempoema.wordpress.com/2010/04/09/o-que-e-poesia/   nesta outra seleção, três outros (super) poetas: aníbal beça, fabiano calixto e glauco [...]

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