OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6ª EDIÇÃO) — VÍDEO: PAULO SABINO & ELISA LUCINDA

29 de agosto de 2016 - Leave a Response

(Todas as fotos: Elena Moccagatta.)

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(O coordenador do projeto — Paulo Sabino — & a homenageada da noite — Elisa Lucinda.)
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Aos interessados, vídeo da 6ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 2 de agosto (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação estelar de: Elisa Lucinda, Moraes Moreira & Maria Rezende.

No vídeo desta publicação, um bate-papo com a homenageada da noite, a poeta & atriz Elisa Lucinda, que fala sobre o convite para fazer o seu mais recente livro — e o primeiro romance — intitulado “Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada”, finalista do prêmio São Paulo de Literatura 2015, sobre a construção da narrativa, sobre o seu contato com o escritor & poeta moçambicano Mia Couto, responsável pelo prefácio do livro, e conta casos divertidos que permeiam a sua vivência com a obra. Ao final, a poeta & atriz recita “Mar português”, poema do grande homenageado da noite, o poeta português Fernando Pessoa.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. Bate-papo com Elisa Lucinda & Paulo Sabino a respeito do livro Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada, de Elisa Lucinda. Elisa Lucinda recita Mar português, poema de Fernando Pessoa.)

 

MAR PORTUGUÊS  (Fernando Pessoa)

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

JOÃO CABRAL DE MELO NETO: RAZÃO & EMOÇÃO UNAS, INDISSOCIÁVEIS

16 de agosto de 2016 - Leave a Response

João Cabral de Melo Neto

(O poeta)

Pedra do Frade

(A pedra)

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(O sertão)
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João Cabral de Melo Neto é um poeta que, em geral, todo poeta gostaria de ser (pelo menos um pouquinho). (Falo por muitos, eu sei.)

Sua poética é enxuta, econômica, e seu português, elegante, com mira certeira ao construir suas imagens pela economia de palavras. Diz-se que, por isso, João Cabral é um poeta também enxuto, econômico, nas emoções; que João Cabral é um poeta apenas “cerebral”.

Eu, na minha humilde percepção, porém convicto, sempre discordei disso. Porque, de fato, João Cabral é um poeta cerebral; “cerebral” no sentido de ter cada palavra milimetricamente pensada & posta no poema. Entretanto, atrelado ao seu trabalho cerebral, o de pensar — pelo recurso da economia — cada palavra milimetricamente posta no poema, vai no verso o que o emociona profundamente no mundo — vide o seu acervo temário.

João Cabral é um homem/poeta de profundezas, que olhou o seu povo de morte & vida severina, lamentou pelo rio de sua terra & infância, o seu Capiberibe, apaixonou-se por Sevilha & suas bailadoras, e admirou a poesia de Joaquim Cardozo, Augusto de Campos, Sophia de Mello Breyner Andresen, W. H. Auden, Marianne Moore, Elizabeth Bishop, Marly de Oliveira, Alexandre O’Neill, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, entre outros.

Portanto, ao meu ver, o que é cerebral, na obra cabralina, é a formulação técnica da poesia; e o que é posto em verso com “precisão cirúrgica” (com a técnica) é banhado por seu olhar emocionado diante das coisas.

É assim que vejo, sinto, percebo, a obra do João Cabral. É este o João Cabral que me alucina, que me emociona.

Principalmente a segunda parte do poema abaixo, que é das coisas mais lindas do mundo, me serve de exemplo para ilustrar o escrito acima.

Um dos modos de educar-se pela pedra: (nascendo, vivendo) no Sertão: o Sertão & sua paisagem dura, seca, árida, agreste, econômica, muda, paisagem sertaneja que, por dura, seca, árida, agreste, econômica, muda, molda os sertanejos à pedra. No Sertão, a educação pela pedra é de dentro pra fora, isto é, do SERtanejo para o seu hábitat, a educação pela pedra é pré-didática, isto é, a educação pela pedra não é ensinada pela pedra: lá no sertão, a pedra, uma pedra de nascença, entranha na alma.

Como não se emocionar com essa percepção do poeta acerca do Sertão & suas gentes? Como negar o olhar emocionado, aliado ao rigor estilístico, de quem enxerga desta maneira?

João Cabral de Melo Neto é muito cerebral & também emoção sublimada.

E tenho dito.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: A educação pela pedra e depois. autor: João Cabral de Melo Neto. editora: Nova Fronteira.)

 

 

A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

 

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

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Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6ª EDIÇÃO) — FOTOS & VÍDEO DE ABERTURA: PAULO SABINO

11 de agosto de 2016 - Leave a Response

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(Instante antes do início — Foto: Felipe Fernandes)

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(Paulo Sabino — Foto: Felipe Fernandes)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

Paulo Sabino 6ª Ocupação Poética

(Foto: Taís Campos)

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(A homenageada: Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Felipe Fernandes)

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(Maria Rezende — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Felipe Fernandes)

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(Moraes Moreira — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Maria Rezende & Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Moraes Moreira & Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Felipe Fernandes)

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(Paulo Sabino & Maria Rezende — Foto: Rafael Roesler Millon)

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(Foto: Rafael Roesler Millon)

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(Moraes Moreira & Paulo Sabino — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Rafael Roesler Millon)

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(O coordenador do projeto — Paulo Sabino — & a homenageada da noite — Elisa Lucinda — Foto: Felipe Fernandes)

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(Foto: Elena Moccagatta)

Paulo Sabino & Elisa Lucinda 6ª Ocupação Poética

(Foto: Singoala Luz)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Felipe Fernandes)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Rafael Roesler Millon)

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(O quarteto fantástico: Elisa Lucinda, Moraes Moreira, Paulo Sabino & Maria Rezende — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)
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“Meu pretinho, muito obrigada, você é muito querido, espontâneo, foi uma noite mágica. Quero fazer outra o ano que vem, ou quando você puder e quiser, com a obra poética minha. Meu beijo imenso, Paulo, muito obrigada mesmo.”

(Elisa Lucinda)

 

Mensagens de espectadores da 6ª edição do projeto Ocupação Poética:

“Muito bom, ver o trabalho de Elisa Lucinda é sempre transformador, e os convidados Moraes Moreira e Maria Rezende tb colaboraram para florear o ambiente. Parabéns Paulo Sabino”.

“Foi uma noite maravilhosa meu lindo amigo, sou sua fã de seu projeto de carteirinha. Gratidão!”

“Misturar o talento e a luz de Elisa Lucinda com a genialidade de Fernando Pessoa não poderia resultar em nada menos que MARAVILHOSO!”

“Foi demais! Vou devorar o livro nas férias.”

 

 

Só me chegaram registros lindos da 6ª edição do projeto Ocupação Poética, que coordeno no teatro Cândido Mendes de Ipanema, que teve, como homenageada, no dia 2 de agosto (terça-feira), a atriz & poeta & minha diva Elisa Lucinda, que, por sua vez, homenageou o poeta Fernando Pessoa, e as participações para lá de especiais da poeta Maria Rezende & do cantor, músico & compositor Moraes Moreira.

Uma noite linda, descontraída, e cheia de conteúdo.

Todos muito felizes. As fotos traduzem a beleza & a descontração que conseguimos imprimir na apresentação.

Como base das leituras, o mais recente livro — e o primeiro romance — da Elisa Lucinda, intitulado “Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada”, finalista do prêmio São Paulo de Literatura 2015.

No vídeo desta publicação, a apresentação do projeto, o poema de Carlos Drummond de Andrade em homenagem a Pessoa & o trecho do livro da Elisa escolhido por mim para a minha leitura.

Ao que tudo indica, pela mensagem da Elisa postada acima, teremos a atriz & poeta uma segunda vez no projeto. Elisa já me contou que tem livro inédito de poesia chegando na área; então a idéia é fazermos uma edição focada no seu mais recente livro de poemas! Oba!

Elisa Lucinda merece repeteco! Eu quero Elisa Lucinda mais uma vez na Ocupação Poética!

Agradecer imensamente aos participantes, Maria Rezende & Moraes Moreira, que só fizeram abrilhantar a noite ainda mais!

Mais vídeos desta edição serão publicados! É só aguardar!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. Paulo Sabino apresenta o projeto Ocupação Poética, recita As identidades do poeta, poema de Carlos Drummond de Andrade, e lê um trecho do livro Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada, de Elisa Lucinda.)

 

AS IDENTIDADES DO POETA  (Carlos Drummond de Andrade)

De manhã pergunto:
Com quem se parece Fernando Pessoa?
Com seus múltiplos eus, expostos, oblíquos
em véu de garoa?
Com tripulantes-máscaras de esquiva canoa?
Com elfo imergente
em frígida lagoa?
Com a garra, a juba, o pelo amaciado
de velha leoa?

Quem radiografa, quem esclarece
Fernando Pessoa,
feixe de contrastes, união de chispas,
aluvião de lajes
figurando catedral ausente de cardeais,
com duendes oficiando absconso ritual
vedado a profanos?

Que sina, frustrado destino, foi a coroa
desse Pessoa,
morto redivivo, presentifuturo
no céu de Lisboa?

Que levava (leva) no bolso
Fernando Reis de Campos Caeiro Pessoa:
irônico bilhete de identidade,
identity card
válido por cinco anos ou pela eternidade?

Que leva na alma:
augúrios de sibila,
Portugal a entristecer,
a desastrosa máquina do universo?

Fernando Pessoa caminha sozinho
pelas ruas da Baixa,
pela rotina do escritório
mercantil hostil
ou vai, dialogante, em companhia
de tantos si-mesmos
que mal pressentimos
na seca solitude
de seu sobretudo?

Afinal, quem é quem, na maranha
de fingimento que mal finge
e vai tecendo com fios de astúcia
personas mil na vaga estrutura
de um frágil Pessoa?

Quem apareceu, desapareceu na proa
de nave-canção
e confunde nosso pensar-sentir
com desconforto de ave poesca
e doçura de flauta de Pã?

À noite divido-me:
anseio saber,
prefiro ignorar
esse enigma chamado Fernando Pessoa.
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(trecho do livro: Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada. autora: Elisa Lucinda. editora: Record.)

 

Abro a janela por onde vejo minha gênese: para revelar que mais tarde eu poderia vir a ser o mais popular, o mais conhecido poeta de língua portuguesa do mundo, nasci numa tarde nítida de fim de primavera quando o sol confirmava três horas e vinte minutos no meio do signo de gêmeos daquela brilhosa hora, no quarto andar esquerdo do número quatro do largo de São Carlos, em frente ao Teatro de Ópera do mesmo bairro. Quem ler o meu mapa astral logo interpretará com facilidade o meu destino mais do que eu fui capaz de fazê-lo. Um mês e uma semana depois houve batizado daquele bebê reluzente ao colo da satisfeita madrinha, tia Anica, na basílica dos Mártires, lá no Chiado. Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa, a minha mãe e primeiro amor de minha vida, minha verdadeira pátria, a quem amei mais do que a minha própria pátria, e o meu pai, Joaquim Seabra Pessoa, funcionário público do Ministério da Justiça durante o dia e crítico musical do Diário de Notícias à noite, encontraram-se. O amor dos dois deu-me este nome porque nasci em 13 de junho, dia de Santo Antônio e também dia de Lisboa. Logo ele que, por batismo, era Fernando de Bulhões, o nome verdadeiro do santo de quem a minha família se afirmava parente mesmo, genealogicamente falando, e do qual reclamava consanguinidade. Pois bem, este homem recebeu, dentro da ordem franciscana, o pseudônimo de Antônio. Assim resultou em mim como Fernando Antônio Nogueira Pessoa, cujo duplo nome havia de gerar várias pessoas, outros eus meus, criados por mim com nome e obra próprios, mas isto é assunto para depois, é outro capítulo. Prefiro que nos detenhamos por agora nesta casa que fica entre uma igreja e um teatro lírico. As cenas de devoção e óperas, eu primeiro as ouvi para depois vê-las. Isto é, depois já de tê-las criado automaticamente em minha imaginação. Êh, êh, êh, êh, minha imaginação, aquela que dá facilmente partida, desde aí, ao pé de fortes impressões sonoras! Veja em que deu tamanha alegórica vizinhança: De um lado, ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia, e cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça. Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso, e as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro. Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça e sente-se o chiar da água no fato de haver coro. A missa é um automóvel que passa. Súbito vento sacode em esplendor maior a festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe, com o som das rodas do automóvel, e apagam-se as luzes da igreja na chuva que cessa. E tudo isto tilintando num coraçãozinho destes como é o meu.

Do outro lado, todo o teatro é meu quintal, a minha infância: o maestro sacode a batuta, aquele dia em que eu brincava ao pé dum muro de quintal, atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado o deslizar dum cão verde, ora um cavalo azul com um jóquei amarelo. O teatro é o meu quintal, está em todos os lugares, e a bola vem a tocar a música. Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos. O muro do quintal é feito de gestos de batuta. Todo o teatro é um muro branco de música por onde um cão verde corre atrás de minha saudade da minha infância. (…) O maestro agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro, e curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça, bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo. Prossegue a música, e eis a minha infância.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6ª EDIÇÃO) — O TIME COMPLETO

31 de julho de 2016 - Leave a Response

(Aqui, o elenco completo da 6ª edição do projeto “Ocupação Poética”, coordenado por este que vos escreve.)

Elisa Lucinda

(Elisa Lucinda)

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(Fernando Pessoa)

Moraes Moreira

(Moraes Moreira)

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(Dani Ornellas)

Miguel Falabella

(Miguel Falabella)

Maria Rezende

(Maria Rezende)

Geovana Pires & Elisa Lucinda

(Geovana Pires & Elisa Lucinda)

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(Divulgação da 6ª edição do projeto Ocupação Poética)
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Anotem na agenda, espalhem a notícia, compartilhem esta publicação!

Dia 02 DE AGOSTO (terça-feira), às 20H: a 6ª edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA, coordenado por ESTE QUE VOS ESCREVE, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro), com leituras baseadas no primeiro romance da poeta, dramaturga, atriz & cantora ELISA LUCINDA, intitulado “FERNANDO PESSOA, O CAVALEIRO DE NADA”.

A poeta é a primeira mulher (e espero, MESMO!, que Elisa abra alas a outras tantas) a integrar este projeto.

Na noite, prestaremos uma homenagem ao maior poeta da língua portuguesa, FERNANDO PESSOA.

Além da participação da poeta homenageada & da participação deste que vos escreve, o evento contará também com as participações para lá de ESPECIAIS:

— do cantor & compositor MORAES MOREIRA;
— da atriz DANI ORNELLAS;
— do ator & diretor MIGUEL FALABELLA;
— da poeta MARIA REZENDE;
— da atriz & dramaturga GEOVANA PIRES;

 

02 DE AGOSTO (terça-feira), às 20H, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro): a 6ª edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA.

Coordenação do projeto: PAULO SABINO.

Esperamos todos!

 

SERVIÇO

Ocupação Poética – Teatro Cândido Mendes

Coordenação: PAULO SABINO

Terça-feira (02/08)

Participantes: PAULO SABINO, ELISA LUCINDA, MORAES MOREIRA, DANI ORNELLAS, MIGUEL FALABELLA, MARIA REZENDE, GEOVANA PIRES

Horário: 20h
Entrada: R$ 40,00 (inteira) / R$ 20,00 (meia)
Vendas antecipadas na bilheteria do teatro
End.: Joana Angélica, 63 – Ipanema, Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2523-3663.
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(do livro: Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada. autora: Elisa Lucinda. autor dos trechos selecionados: Fernando Pessoa. editora: Record.)

 

 

 

Sou um pobre recortador de paradoxos, mas possuo a qualidade de arranjar argumentos para defender todas as teorias, mesmo as mais absurdas, e é esta última a habilitação com que me recomendo. Por mim, o meu egoísmo é a superfície da minha dedicação. O meu espírito vive constantemente no estudo e no cuidado da verdade, e no escrúpulo de deixar, quando eu deixar a veste que me liga a este mundo, uma obra que sirva ao progresso e ao bem da humanidade.
 
 
Se eles [os heterônimos do poeta] escrevem coisas belas, essas coisas são belas, independentemente de quaisquer considerações metafísicas sobre os autores “reais” delas. Se, nas suas filosofias, dizem quaisquer verdades, essas coisas são verdadeiras independentemente da realidade de quem as disse. Tornando-me assim, pelo menos um louco que sonha alto, pelo mais, não um só escritor, mas toda uma literatura, quando não contribuísse para me divertir, o que para mim já era bastante, contribuo talvez para engrandecer o universo, porque quem, morrendo, deixa escrito um verso belo deixou mais ricos os céus e a terra e mais emotivamente misteriosa a razão de haver estrelas e gente.
 
 
Da mais alta janela da minha casa com um lenço branco digo adeus aos meus versos que partem para a Humanidade. E não estou alegre nem triste. Esse é o destino dos versos. Escrevi-os e devo mostrá-los a todos porque não posso fazer o contrário, como a flor não pode esconder a cor, nem o rio esconder que corre, nem a árvore esconder que dá fruto. Ei-los que vão já longe como que na diligência e eu sem querer sinto pena como uma dor no corpo. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Flor, colheu-me o meu destino para os olhos. Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas. Rio, o destino da minha água era não ficar em mim. Submeto-me e sinto-me quase alegre, quase alegre como quem se cansa de estar triste. Ide, ide de mim! Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza. Murcha a flor e o seu pó dura sempre. Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua. Passo e fico, como o Universo.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6¤ EDIÇÃO) — ELISA LUCINDA

16 de julho de 2016 - Leave a Response

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(A homenageada da noite: Elisa Lucinda)

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(O homenageado da homenageada: Fernando Pessoa)                                  _____________________________________

Anotem na agenda, espalhem a notícia, compartilhem esta publicação!

Dia 2 DE AGOSTO (terça-feira), às 20H: a 6¤ edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA, coordenado por ESTE QUE VOS ESCREVE, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro), com leituras baseadas no mais recente livro — e o primeiro romance — da poeta, atriz, cantora & dramaturga ELISA LUCINDA, intitulado “FERNANDO PESSOA — O CAVALEIRO DE NADA”.

Elisa Lucinda é a primeira mulher a integrar este projeto. E espero que Elisa abra alas para outras muitas homenageadas.

Além da participação da poeta, dramaturga, atriz & cantora & da participação deste que vos escreve, o evento contará com participações muito especiais. Aguardem a próxima publicação, ela trará as informações completas!

De qualquer maneira, salvem a data: DE AGOSTO (terça-feira), às 20H, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro): a 6¤ edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA com ELISA LUCINDA.

Coordenação do projeto: PAULO SABINO.

Esperamos todos!                                   _____________________________________

(do livro: Poesia 1918 – 1930. autor: Fernando Pessoa. editora: Companhia das Letras.)

 

 

LÁ FORA A VIDA estua e tem dinheiro.
Eu, aqui, nulo e afastado, fico
O perpétuo estrangeiro
Que nem de sonhar sou rico.

Não sou ninguém, o meu trabalho é nada
Neste enorme rolar da vida cheia,
Vivo uma vida que nem é regrada
Nem é destrambelhada e alheia.

E um século depois terá esquecido
Tudo quanto estuou e foi ruído
Nesta hora em que vivo. E os bisnetos

Dos opressores de hoje, desta hora lata
Só saberão, mas vagamente, a data
E claramente os meus sonetos.

40 ANOS: CORAÇÃO NA BOCA, PEITO ABERTO — VOU SANGRANDO

24 de junho de 2016 - Leave a Response

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o fim de uma década, da década de 30, para o início de outra, da década de 40.

40 anos para chegar até aqui, para chegar onde cheguei.

e afirmo a quem me lê: começaria tudo outra vez se preciso fosse. a chama em meu peito ainda queima. saiba: nada foi em vão: nenhuma das tristes emoções, nenhuma das alegres emoções. 40 anos: nada foi em vão.

certamente foram necessárias todas as vivências para que o paulo sabino resultasse neste que aqui se apresenta depois de vencidas 40 primaveras.

40 primaveras: a fé no que virá & a alegria de poder olhar pra trás & ver que voltaria a viver neste imenso salão que foi & é a minha existência & seus acontecimentos.

neste imenso salão que foi & é a minha existência, a grande estrela, a musa maior, foi & é a poesia.

a experiência poética, para mim, é uma experiência existencial.

lendo poesia, interpretando os jogos semânticos criados nos, e entre os, versos, reinvento o homem que sou, e, reinventando-me, promulgo a minha constante atualização como homem, ao me perceber humano & mortal a cada ato, ao me perceber ser pensante & atuante na vida; é disso que vem a poesia.

pelo tanto que a poesia comporta, por tudo que a poesia pode, porque a poesia reinventa o homem em sua trajetória, a origem da poesia em nada difere da origem do homem, uma vez que, sem poesia, não há sequer a possibilidade do humano.

pois que a possibilidade do humano pulsa dentro da prática poética: não sabemos vivenciar o mundo sem poetizá-lo, sem mitificá-lo, sem criar metáforas & saberes fantásticos atribuídos a ele; não damos conta de tanto & criamos a poesia, os mitos & as lendas, que acabam por recriar o mundo.

em última instância: a experiência humana é experiência poética, é o modo que temos, que descobrimos, que inventamos, de viver, de experimentar, o mundo que nos cerca.

a poesia é uma condição — e condenação — do homem.

reinventando-me, a poesia me reafirma homem, mortal/ transitório/ inacabado, me reafirma ser pensante & pulsante entre as coisas.

sobretudo o verso é o que pode lançar mundos no mundo.

por ser o verso aquele que pode lançar mundos no mundo, a minha voz, a minha garganta, está sempre à disposição do canto que a poesia contém.

a possibilidade do humano pulsa dentro da prática poética: não sabemos vivenciar o mundo sem poetizá-lo, sem mitificá-lo, sem criar metáforas & saberes fantásticos atribuídos a ele: por isso faço da minha vida a minha melhor poesia.

vida & poesia, poesia & vida: duas coisas, em mim, entrelaçadas, unas, entremeadas: duas coisas que, dentro de mim, não podem ter fim: vida & poesia, poesia & vida: dois azuis no mesmo azul — meu horizonte sem nuvem nem monte.

quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda que, palavra por palavra, eis, aqui, neste espaço, uma pessoa se entregando.

coração na boca, peito aberto — vou sangrando: são as lutas desta nossa vida que eu estou cantando: as belezas & as vilezas, as claridades & as escuridões, o caminho aberto & o muro armado.

quando eu abrir minha garganta, essa força tanta (força que carrego nas cordas vocais por cantar a vida, por cantar a poesia), tudo o que você ouvir, esteja certa de que estarei vivendo.

veja o brilho dos meus olhos & o tremor nas minhas mãos quando estou no palco do teatro, dizendo poesia, isto é, dizendo a vida através da poesia.

e se eu chorar & o sal — das lágrimas — molhar o meu sorriso, sorriso que sustento na boca com o pranto do olhar, não se espante; ao invés de espantar-se com o meu sorriso alinhado ao meu pranto, cante, que o teu canto é minha força pra cantar, que o canto de quem canta comigo é de onde extraio a minha força & vontade & coragem de cantar o meu canto: canto de vida — que é o canto da poesia.

40 primaveras vencidas & eu não me arrependo de nada nas 40 voltas em torno do sol: começaria tudo outra vez se preciso fosse, meu amor.

em mim o eterno é música (a música dos versos de um poema, a música dos versos de um poema-canção) & amor (pelo céu, pelo mar, pelo sol, pela pessoa, pela pedra, pelo bicho, pelo mato: pela vida).

eu deixar de cantar (o canto da poesia) ou deixar de gostar de você (vida): não há nada, no mundo, que possa fazer.

não há nada no mundo — nem nunca haverá.

em mim, o eterno é música & amor.

que venham mais 40 primaveras!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do álbum: De volta ao começo. artista: Gonzaguinha. autor dos versos: Gonzaguinha. gravadora: EMI.)

 

 

SANGRANDO

 

Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa
Se entregando
Coração na boca, peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando
Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo que você ouvir
Esteja certa
Que estarei vivendo
Veja o brilho dos meus olhos
E o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda raça e emoção
E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante
Cante
Que o teu canto é a minha força
Pra cantar
Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de viver
O que é amar
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: De volta ao começo. artista & intérprete: Gonzaguinha. canção: Sangrando. autor: Gonzaguinha. citação da canção: Começaria tudo outra vez. autor: Gonzaguinha. gravadora: EMI.)

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (5ª EDIÇÃO) — FOTOS (EVENTO) & VÍDEOS (PAULO SABINO)

21 de junho de 2016 - Leave a Response

Ocupação Poética 1

Ocupação Poética 11

 

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(Paulo Sabino)

Ocupação Poética 13

(Ithamara Koorax)

Ocupação Poética 16

(Sheila da Silveira)

Ocupação Poética 3

(Aloísio de Abreu)

Ocupação Poética 15

(Sandra Duailibe)

Ocupação Poética 9

(Paulo Mário Martins)

Ocupação Poética 20

(Patrícia Mellodi)

Ocupação Poética 22

(Jorge Salomão)

Ocupação Poética 40

(Jane Di Castro)

Ocupação Poética 25

(Christovam de Chevalier)

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(O elenco desta 5ª edição: Sheila da Silveira, Paulo Sabino, Patricia Mellodi, Jorge Salomão, Jane Di Castro, Christovam de Chevalier, Aloísio de Abreu, Ithamara Koorax, Paulo Mário Martins, Sandra Duailibe)

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(Aloísio de Abreu, Paulo Sabino & Jane Di Castro — Foto: Marco Rodrigues)

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(Ithamara Koorax & Paulo Sabino)

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(Paulo Sabino, Paulo Mário Martins & Christovam de Chevalier)

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(Patricia Mellodi, Paulo Sabino, Jorge Salomão & Sandra Duailibe)

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(O coordenador do projeto, Paulo Sabino, e o homenageado da noite, o jornalista & poeta Christovam de Chevalier)

Ocupação Poética Chistovam de Chavalier Zona Sul O Globo Vejinha Cultura_Revista Veja

5ª Edição_Folha SP

5ª Edição_Folha SP 1

(Algumas matérias sobre a 5ª edição deste projeto: no caderno Zona Sul, do jornal O Globo; na revista Veja Cultura; na coluna da Mônica Bergamo, do jornal Folha de S.Paulo)
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A noite de quarta-feira (15/06), com a 5ª edição do projeto Ocupação Poética, coordenado por este que vos escreve, no teatro Cândido Mendes (Ipanema), em homenagem ao querido & talentoso jornalista & poeta Christovam de Chevalier, e com participações para lá de especiais de Ithamara Koorax, Sheila da Silveira, Aloísio de Abreu, Sandra Duailibe, Paulo Mário Martins, Patrícia Mellodi, Jorge Salomão & Jane di Castro, foi de pura emoção, pura sofisticação, pura lindeza, pura luz.

Noite embriagada de poesia.

A noite de quarta-feira (15/06) teve um significado imenso na minha existência: perto de completar os meus 40 anos (perto de fechar mais uma década de vida, a década de 30, e partindo para a década de 40), no dia 24 de junho, dia de são João Xangô menino, uma noite mágica de poesia, ao lado de feras participantes, amigos & público quente, me trouxe uma alegria de vida que a minha atenção dispensada à saúde da minha mãe, em geral, neste momento, tem dispensado.

“Coração na boca, peito aberto, vou sangrando”.

Valeu demais, valeu por tudo!

Agradecer a todos os envolvidos para que a noite acontecesse: Christovam de Chevalier, Ithamara Koorax, Sheila da Silveira, Aloísio de Abreu, Sandra Duailibe, Paulo Mário Martins, Patrícia Mellodi, Jorge Salomão, Jane di Castro, Julia Mendes de Almeida, Rafael Roesler Millon, Adil Tiscatti & Fernanda Oliveira — o meu muitíssimobrigado!

Agora é partir para a 6ª edição!

Vamos que vamos!

“Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda: é apenas o meu jeito de viver o que é amar”.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [5ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 15/06/2016. Paulo Sabino recita Não sou a mosca azul do Machado (…), poema de Christovam de Chevalier.)

 

Não sou a mosca azul do Machado     (Christovam de Chevalier)
pois o cofre da alegria e juventude
não está em mim depositado.

O que há é o triste som do alaúde
desafinado, o bafo de idosos banguelas
(cinza e preto colorem minhas aquarelas).

Fico triste, pois sou triste.
Nenhum dedo em riste
vai barrar a entrada da tristeza em mim
(seu crachá tem validade permanente).

A tristeza me visita com freqüência
É habituée da minha pessoa.
Aproveita-se da minha ausência
Invadindo-me quando estou à toa.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [5ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 15/06/2016. Paulo Sabino recita Quadrinha sem motivo, poema de Christovam de Chevalier.)

 

QUADRINHA SEM MOTIVO  (Christovam de Chevalier)

 

O consolo da voz
sobre o solo da foz
do rio que, como um raio
rasga o horizonte onde desmaio.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [5ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 15/06/2016. Paulo Sabino recita Menstrual, poema de Christovam de Chevalier.)

 

MENSTRUAL  (Christovam de Chevalier)

 

Boceta bucólica
faceta alcoólica
lírica e simbólica
Coca-Cólica.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [5ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 15/06/2016. Paulo Sabino recita Deus, poema de Christovam de Chevalier.)

 

DEUS  (Christovam de Chevalier)

 

Deus do vinagre e do Viagra
Das hipócritas beatas e das livres prostitutas
Deus, que o íntimo de minh’ alma consagra
Dos imbecis às pessoas mais astutas.

Não és o it denominado por Clarice
Muito menos as flores e árvores do Caeiro.
Se aparecesses em flashes de propaganda
Deixando assim que algum de nós o visse
Terias algum crédito primeiro.

Terá Deus o rosto do Murilo Benício?
Terá Ele conosco alguma semelhança?
Terá já tido um fim ou mesmo um início?
Terá o corpo de idoso ou a tez de criança?

Não rogo a ti cem vezes como o compositor
Simplesmente não te rogo
Renego-te, abandono-te
Como se esquece o carrinho de bebê numa praça deserta.

Posso até crer em ti
Crendo no que desconheço.
Crendo no que nunca vi…
Será que isso eu mereço?
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [5ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 15/06/2016. Paulo Sabino recita Canção a Maria Bethânia, poema de Christovam de Chevalier.)

 

CANÇÃO A MARIA BETHÂNIA  (Christovam de Chevalier)

 

O timbre de Maria Bethânia é timbre de pedra.
Pedra corroída por erosões pluviais
Negrume vindo do centro dos umbrais
(tudo quanto é pouco, tudo quanto é mais).
O timbre de Maria é a ladainha secular
Que ecoa e paira sobre o lilás do mar
Ladainha que evoca a Virgem Mãe
Ladainha que é profana e malsã
Canto avermelhado , ponto de Iansã
Pássara proibida da manhã
Tenra, Terra…

Diva, divina, divindade
Doce e sutil calamidade
Abelha rainha de sua colmeia
Sangras na palma da mão tua platéia
Musa que abusa da melodia
Nobre e altiva fulana
Com jogo de cintura, rodas tua baiana
Em prol do respeito e da disciplina
Canto choroso de madura menina.

Dentre tantas és a maior intérprete
Feiticeira das feiticeiras: és Hécate.
Clamor vociferado em doce canto
Rainha que abdicou de cetro, coroa e do rubro manto
Alegria transmutada em doce pranto
Luz da noite
Facho incandescente.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (5ª EDIÇÃO) — O TIME COMPLETO

8 de junho de 2016 - 2 Respostas

(Aqui, o elenco completo desta 5ª edição do projeto “Ocupação Poética”, coordenado por este que vos escreve.)

Christovam de Chevalier

(Christovam de Chevalier)

Jane di Castro

(Jane di Castro)

Jorge Salomão

(Jorge Salomão)

Ithamara Koorax

(Ithamara Koorax)

Aloísio de Abreu

(Aloísio de Abreu)

Patrícia Mellodi

(Patrícia Mellodi)

Paulo Mário Martins

(Paulo Mário Martins)

Sheila da Silveira & Christovam de Chevalier

(Sheila da Silveira & Christovam de Chevalier)
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Anotem na agenda, espalhem a notícia, compartilhem esta publicação!

Dia 15 DE JUNHO (quarta-feira), às 20H: a 5ª edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA, coordenado por ESTE QUE VOS ESCREVE, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro), com leituras baseadas no segundo livro do jovem poeta & jornalista, colunista do Jornal “O Globo”, CHRISTOVAM DE CHEVALIER, intitulado “NO ESCURO DA NOITE EM CLARO”.

O poeta & jornalista Christovam de Chevalier é o mais jovem poeta a integrar este projeto.

Além da participação do poeta & jornalista & da participação deste que vos escreve, o evento contará também com as participações para lá de ESPECIAIS:

— da atriz & cantora JANE DI CASTRO;
— do poeta & agitador cultural JORGE SALOMÃO;
— da cantora ITHAMARA KOORAX;
— do ator ALOÍSIO DE ABREU;
— da cantora PATRÍCIA MELLODI;
— do jornalista PAULO MÁRIO MARTINS;
— da poeta SHEILA DA SILVEIRA;

15 DE JUNHO (quarta-feira), às 20H, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro): a 5ª edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA.

Coordenação do projeto: PAULO SABINO.

Esperamos todos!

 

SERVIÇO

Ocupação Poética – Teatro Cândido Mendes

Coordenação: PAULO SABINO

Quarta-feira (15/06)

Participantes: PAULO SABINO, CHRISTOVAM DE CHEVALIER, JANE DI CASTRO, JORGE SALOMÃO, ITHAMARA KOORAX, ALOÍSIO DE ABREU, PATRÍCIA MELLODI, PAULO MÁRIO MARTINS, SHEILA DA SILVEIRA

Horário: 20h
Entrada: R$ 40,00 (inteira) / R$ 20,00 (meia)
Vendas antecipadas na bilheteria do teatro
End.: Joana Angélica, 63 – Ipanema, Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2523-3663.
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(do livro: No escuro da noite em claro. autor: Christovam de Chevalier. editora: 7Letras.)

 

 

COMIGO É ASSIM

 

Com a grafia viva
de uma língua extinta
faço minha poesia.

Com o punho exausto
a alma em estado de alerta
assim faço minha poesia.

Criança rabiscando a esmo
afirmando calamidades.
No escuro da noite em claro.

Assim faço minha poesia:
com indícios de talento
e a urgência de doente terminal.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — ENCERRAMENTO: GERALDO CARNEIRO & MARTINHO DA VILA

6 de junho de 2016 - Leave a Response

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(Geraldo Carneiro)

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(Martinho da Vila — Foto: AgNews)

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(Martinho da Vila & Geraldo Carneiro)

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(Martinho da Vila & Geraldo Carneiro — Foto: AgNews)

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(Geraldo Carneiro & Paulo Sabino)

Ocupação Poética_4 edição_04

(Martinho da Vila & Paulo Sabino)

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(Os participantes desta edição do projeto: Paulo Sabino, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Martinho da Vila, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Geraldo Carneiro, Tom Farias, Maria Gal, Ju Colombo, Maíra Freitas — Foto: AgNews)

Ocupação Poética_4 edição_12

(Ao final, Martinho da Vila assinando exemplares do seu livro “Barras, vilas & amores”)

Ocupação Poética_4 edição_17

(A dedicatória do meu exemplar: “Ao Paulo Sabino, este meu ‘Barras, vilas & amores’, com gratidão, Martinho da Vila”)
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“Querido
Saímos todos de alma lavada sim.
A noite foi linda, leve e feliz.
Parabéns pelo seu projeto encantador.
Que venham muitas outras edições…
Bjs
Cléo”

(Mensagem de Cléo Ferreira, esposa do Martinho da Vila, recebida no dia seguinte ao evento)

 

 

Aos interessados, o encerramento da 4ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 3 de maio (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Tom Farias.

Nos 2 vídeos desta publicação, gravados, montados, editados & produzidos pelo querido músico, produtor & videomaker Felipe Fernandes, a grande surpresa da noite: o poeta, tradutor & dramaturgo Geraldo Carneiro lê “Escuta, cavaquinho!”, a sua primeira parceria com o grande homenageado da noite, Martinho da Vila, parceria até então inédita, integrante do próximo álbum do Martinho, ainda em produção, poema-canção que, segundo o cantor, é a primeira faixa do disco, abre o seu novo trabalho. Na seqüência, Martinho da Vila canta a capella, pela primeira vez em público, “Escuta, cavaquinho!”, apresentando a música ao seu parceiro letrista, que ainda não a conhecia. Notem que o Geraldo Carneiro lê uma versão do poema-canção que, ao virar canção, para caber na melodia desenhada pelo Martinho, sofre algumas transformações/alterações.

Mais uma vez, agradecer imensamente a todos os envolvidos no projeto, e em especial aos participantes desta 4ª edição. Foi linda!

Aproveito para convidá-los para a 5ª edição do projeto, que acontecerá no dia 15 de junho (quarta-feira), a partir das 20h, no teatro Cândido Mendes (Ipanema), com um jovem & talentoso poeta (o mais jovem poeta a integrar o projeto) & participantes muito especiais.

Deixarei, aqui no blog, todas as informações sobre a próxima edição.

Espero que os senhores tenham se divertido tanto quanto nós, participantes, nos divertimos realizando.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Geraldo Carneiro lê o poema-canção Escuta, cavaquinho!, parceira de Geraldo CarneiroMartinho da Vila. imagens/montagem/edição/produção do vídeo: Felipe Fernandes.)

 

ESCUTA, CAVAQUINHO!   (Geraldo Carneiro/Martinho da Vila)

 

Escuta, cavaquinho, as minhas preces
Senão o tempo passa, a gente esquece
Esquece de aprontar a fantasia
De celebrar a dor e a alegria

Toca comigo pra que o nosso sonho se realize
Ou pelo menos guarde um press-release
Pra que no futuro possam ler
Que houve dois seres que se amaram tanto
Que misturaram a alegria e o pranto

Eu, violão, e você, cavaquinho
Eu, no bordão, e você, no chorinho
Sem saber se era noite ou se era dia
Felicidade?
A gente nem sabia
Só sabia que vivia no presente
Esse país que é todo eternidade
Com esse sol desfilando em céu aberto
E o resto ganhando forma de saudade
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Martinho da Vila canta a capella a canção Escuta, cavaquinho!, parceira de Geraldo CarneiroMartinho da Vila. imagens/montagem/edição/produção do vídeo: Felipe Fernandes.)

 

ESCUTA, CAVAQUINHO!  (Geraldo Carneiro/Martinho da Vila)

 

Escuta, cavaquinho, as minhas preces
Senão o tempo passa e a gente esquece
Esquece de aprontar a fantasia
De celebrar a dor e a alegria.

Toca pra que um sonho realize
Ou pelo menos guarde um press-release
Pra que um futuro possam ler
Que somos seres que se amam tanto
E que misturam alegria e pranto

Eu, violão, você, cavaquinho
Eu, na canção, você no chorinho
Sem acordar se era noite ou se era dia
Felicidade?
Uma utopia
Que a gente curtia e vivia no presente
Desse país que é todo eternidade
Com esse sol desfilando em carro aberto
E o futuro muito incerto mas já cheio de saudade

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: MARIA GAL, JU COLOMBO, PAULO SABINO & ELISA LUCINDA

2 de junho de 2016 - Leave a Response

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(Maria Gal)

Ocupação Poética_4 edição_37

(Ju Colombo)

Ocupação Poética_4 edição_83

(Paulo Sabino)

Ocupação Poética_4 edição_39

(Elisa Lucinda)
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Aos interessados, 4 vídeos da 4ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 3 de maio (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Tom Farias.

Nos vídeos desta publicação, leituras dos trechos do livro “Barras, vilas & amores”, do homenageado da noite, o cantor, compositor & escritor Martinho da Vila, que tratam das histórias de amor que permeiam a trama do início ao fim: a  atriz & produtora Maria Gal lê trecho sobre a história de amor de Helena (Leninha) & o professor Adib; a atriz & arte-educadora Ju Colombo lê trecho sobre as histórias de amor de Helena (Leninha) & Basílio Mendonça, e do professor Adib & Eugênia; substituindo a cantora & compositora Fernanda Abreu, que não pôde comparecer por um compromisso inadiável surgido de última hora, o coordenador do projeto, o poeta Paulo Sabino, lê trecho sobre a história de amor de Josuel Ferreira & Teresi Aláfia; e a poeta, atriz & dramaturga Elisa Lucinda, num vídeo gravado, montado, editado & produzido pelo querido músico, produtor & videomaker Felipe Fernandes, lê trecho sobre a história de amor de Daomé Benino & Iana Smith.

Portanto, aos interessados, 3 histórias cujo assunto é de interesse & conhecimento do Martinho da Vila: as venturas & desventuras de amar, presentes na vida de qualquer homem amoroso.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Maria Gal lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Estácio Adib de Araújo Calvo, sempre chamado de professor Adib, não era calvo. Seus cabelos levemente grisalhos davam uma aparência senhoril às suas trinta e poucas primaveras. De estatura maior que a média brasileira e com tez morena, olhos castanhos, primava por discreta elegância no vestir raramente esportivo. Sem ser nenhum Adônis, causava delírios de amor em muitas moçoilas. Além de professor, era um diretor, membro do conselho administrativo do colégio, que se esmerava em honrar o magistério tratando os alunos com ternura e respeito.

O flerte com Helena — que ele antes se recusava a tratar por Leninha, como todos — levou-o a ter crises de consciência que dificultavam seu sono e causavam-lhe pesadelos pedófilos. Dá pra imaginar?

Despertava sempre ofegante e, mesmo sem ser muito católico, benzia-se. De volta ao sono, tinha belos devaneios oníricos e amanhecia feliz.

(…)

Certos de que não estavam sendo observados, o compromisso foi selado por um beijinho, daqueles que chamamos de selinho.

O combinado foi no encerramento dos festejos juninos, realizado no Dia de Sant’Ana, 26 de julho. Foi difícil despistar os conterrâneos, mas conseguiram ficar uns minutos a sós. Então se entregaram ao primeiro beijo.

Num oito de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, no fim da missa noturna das seis, foguetes riscaram o céu, e os morteiros explosivos anunciaram a abertura da festa da padroeira.

(…)

Sorrateiramente nosso casal se esgueirou para a parte de trás da igreja e, naquele recanto ermo, a pupila se abriu como uma flor. E o professor, que tem a mesma responsabilidade de um preceptor, excitadíssimo, arvorou-se.

Sem resistência, Leninha capitulou.

Foi tudo muito rápido, uma entrega prazerosa, apesar de a jovem não ter atingido o ápice, o prazer pleno. Voltaram ligeiros para a praça e, tentando demonstrar naturalidade, separaram-se para disfarçar. Cada um a seu lado, tinham a impressão de que nos olhares de todos havia uma censura pelo que fizeram.

(…)

Mesmo muito apaixonados, devido às dificuldades, calculáveis em uma cidade pequena, o casal se encontrou pouquíssimas vezes. Cópula, só a primeira atrás da Igreja da Conceição, suficiente para a concepção, pois um espermatozoide complicador foi direto ao óvulo e o fecundou.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Ju Colombo lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Pouco tempo corrido após a partida de Leninha, Adib passou a assediar Eugênia, como se sabe, sua ex-amante. Ela só correspondeu ao receber um pedido de noivado com proposta de casamento rápido. O enlace do diretor e da pedagoga aconteceu em uma cerimônia simples e lamentosa para o colégio, pois na ocasião eles anunciaram que iriam morar em Brasília.

Quando Leninha chegou de lá com o filho, já registrado como Josuel Wermelingerthal Lutherbach Ferreira, entristeceu-se com a notícia do casório do inesquecível Ernesto Adib, mas alegrou-se ao encontrar seu quarto do jeito que deixou, bem arrumadinho e com todos os seus pertences da infância. Outro foi preparado para Josuel, um aposento espaçoso, pois não havia compartimentos pequenos naquela grande casa, sede da fazenda Barras Três.

(…)

Com a volta dela de Brasília, falsamente viúva, o primo voltou a ficar mais tempo na fazenda. Ao vê-la de prima, não lhe deu novos pêsames. Abriu-lhe um grande sorriso e ela, por ter de demonstrar tristeza teatral, sorriu levemente. Nos seguintes convívios, Mendonça fazia de tudo para distrair Helena, conversando alegremente com ela nos raros momentos em que ficavam sós. Na presença de seu Salvador e dona Úrsula, trocavam olhares cúmplices e sorrisos comprometedores. Nas chegadas e despedidas, discretas carícias manuais.

O namorico foi longo, mas o namoro durou pouco tempo. Começou depois do noivado.

Calma, amigos, explico! No aniversário de 21 anos, o Basílio Mendonça, que já foi “tio Memê” sem nunca ter sido tio e priminho sem ser primo, deu-lhe um anel de pérola e subitamente surpreendeu a todos com um pedido de casamento.

Leninha lacrimejou de felicidade, o choro foi acompanhado pela mãe, que molhou um lenço inteiro. O severo pai manifestou seu desagrado por eles estarem namorando às escondidas, mas aceitou o pedido sob uma condição: teriam de morar na fazenda Barras Três, exigência prontamente aceita.

Eu disse que o namoro foi curto, e foi. Deram logo entrada nos papéis.

Quem não gostou nadinha do casório foi o Josuel. Passou a dormir sozinho, e ainda tinha de dividir as atenções da mãe com o padrasto.

O ciúme aumentou quando nasceu um irmãozinho, paparicadíssimo por todos.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Paulo Sabino lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Josuel passou uns anos na Guiana, foi nomeado para a Costa do Marfim e, após três anos, foi transferido para Benim, onde não havia embaixada. Como no Togo e em Gana, a diplomacia era de responsabilidade de um único embaixador, cuja sede ficava em Lagos, na Nigéria.

De todas as cidades onde esteve, a de que mais gostou foi Cotonou, no Benim, antigo Reino de Daomé, que tem uma história incrível. Portugal dominou o país por longo período e de lá foram enviados para o Brasil, mais especificamente para Bahia e Maranhão, um número incomensurável de escravos. Muitos deles, bem como alguns alforriados, conseguiram retornar para sua terra a partir das revoltas antiescravagistas. Formaram uma comunidade de brasileiros na cidade de Ouidah, onde havia um museu da escravatura e muita gente falava português.

A França colonizou o país até 1975. Depois de libertado com a ajuda soviética, o país adotou o nome de República Popular do Benim.

Entretanto, não é por sua história que o cônsul Josuel gosta muito daquele país de comunistas e candomblecistas. É que lá ele conheceu Teresi Aláfia, uma preta descendente da extinta nobreza, pela qual se enamorou. A jovem ficou grávida, e ele recebeu a notícia da gravidez via telefone, quase ao mesmo tempo em que foi informado por ofício que seria reconduzido ao Brasil.

Que situação! O que dizer ao pai da jovem que nem conhecia?

(…)

O casamento foi realizado na ampla residência da noiva, com muitos convidados.

A cerimônia, baseada no cristianismo, ocasião em que todos os presentes envergavam trajes africanos coloridos, tornava o ambiente alegre e emocionante. Tudo muito bonito. Os nubentes, lindos de azul em dois tons, únicos a usar tais cores, penetraram juntos na sala ao som de marimbas e outros instrumentos sonoros, sob aplausos.

Quando o padre, com seus paramentos brancos, os declarou marido e mulher, atabaques estrategicamente colocados nos cantos da sala retumbaram e todos dançaram. Que beleza, imaginem!
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Elisa Lucinda lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Desde o primário, sempre foi aluno aplicado, aplicadíssimo mesmo. Sua vida infantil e adolescente sempre foi dedicada aos livros e aos cadernos escolares. Tanto é que não chegou a curtir namoricos infantis como seus colegas, e era queridíssimo das professoras, quase todas jovens e belas, pelas quais seus amiguinhos se trancavam a sós nos banheiros. À boca pequena diziam que ele era afeminado.

No prédio onde morava havia uma bela garota, daquelas que aos 11 anos já sentem os calores vaginais, se masturbam e orgasmam. Chamava-se Iana Smith. Por volta dos 12 já tinha beijado muitos meninos, e com 13 seu corpo já havia sido visitado por mãos de afoitos rapazolas em lascívias pelos cantos do condomínio, que tem lugares muito propícios. No início dos 14 virou mulher, das boas. Mulher boa é a que gosta de transar, que se entrega por gosto.

Filha de sul-africanos de origem holandesa, daqueles que não se misturam, era carioquíssima, porém não muito típica fisicamente. Sem o perfil das cariocas, da gema ou não, atraía os olhares de todos na praia da Barra por sua brancura e trejeitos. Seus cabelos muito louros pareciam fios de ouro, e os olhos de profundo azul ornamentavam seu belo rosto de semblante meigo. De estatura mediana, não tinha a “preferência nacional” chamativa, e a “comissão de frente” não era de grande escola do grupo especial, mas também não era das pequenas do segundo grupo. Entretanto, era muito sexy, sabia que era, gostava de ser paquerada, usava bem sua chamativa sexualidade.

O rapaz que transformou Iana em mulher logo foi dispensado a favor de outro, então chorou muito no colo da mãe, que passou a odiá-la. Este outro se apaixonou perdidamente e, substituído, lacrimejou também. O mesmo aconteceu com não sei quantos, até que ela, intrigada porque Benino não a assediava, pensou em conquistá-lo.

(…)

Os namoros da lourinha eram pouco duradouros, efêmeros. O tempo maior foi o do seu namorico com uma professora sua, mas também não durou muito. Abandonada, a mestra sofreu bastante. Mandou-lhe flores na tentativa de reatar, mas não a sensibilizou.

Surpreendentemente o caso de Iana Smith com Daomé Benino vingou.

A loura dilaceradora de corações foi flechada por Cupido, o Deus do Amor, ou melhor, foi atingida por um anjo e ficou caída por ele.

(…)

Benino já havia sido festejado pelos pais com a boa notícia da nomeação. A mãe já tinha aberto um sorriso com todos os seus dentes de marfim com o par de mãos ao alto, mirando o teto e vendo um céu de olhos fechados, dando graças a Deus, cena ocorrida antes do entendimento com a apaixonada Iana.

Depois fez a comunicação do pedido de casamento, à mesa do jantar, já com postura de diplomata:

— Meus queridos, vocês são os melhores pais do mundo. Nunca nos falamos, mas vocês sabem que eu namoro a vizinha do último andar. Pretendo me casar e levá-la comigo para o Uruguai.

Pai Josuel não se manifestou. Mãe Teresi contraiu a face, franzindo a testa:

— Não simpatizo nem um pouquinho com ela. Sinceramente não aprovo esta sua atitude. Casamento é coisa séria. Dá um conselho a ele, marido!

— Mulher, ele não pediu nossa opinião, está nos comunicando sua decisão. Apesar disso, tenho que dizer que não acredito que a união vai dar certo. Pense bem, filho.

— Tá. Vou pensar.

O pai dele não acreditava que Iana seria uma boa esposa por ter a fama de namoradeira volúvel, mas nada mais falou. A mãe sabia, mas calculava que o nome da moça era uma homenagem a Ian Smith, líder da antiga Rodésia, hoje Zimbábue, adepto do apartheid. Achava que os pais dela deveriam ser racistas, mas silenciou. Nada mais falaram no jantar.

Sabedores da desaprovação mútua, a solução foi o casal pegar sorrateiramente suas certidões de nascimento, dar entrada nos papéis, casar às escondidas e comunicar às famílias que iam morar no Uruguai. Planejado e feito.

Receberam as passagens para Montevidéu como se fora um presente de casamento para viver uma lua de mel.

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