À VIDA SEM SENTIDO: POESIA
novembro 4, 2014

Atins_Lençóis Maranhenses

082 2

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se passar a vida, como um detetive, procurando, investigando, o sentido de cada palavra que o infinito, que é a existência, guarda, de cada palavra que é lançada no mundo, se passar a vida, como um detetive, procurando, investigando, o sentido de cada cabeça, de cada cuca pensante, que não passa de uma cabeça de fósforo, pequena, de luminosidade fugaz, incapaz de compreender a existência no seu todo, se passar a vida, como um detetive, procurando, investigando, o sentido de cada estrela mirada da janela do apartamento ou de um foguete (caso embarque em viagem espacial), a vida se foi, a vida passou, e o sentido não veio, o sentido não chegou.

porque a nossa cabeça, de fósforo, é deveras pequena & de luminosidade efêmera para abrigar entendimento tão imenso que é o da existência.

indo inda mais fundo: e será que há algum entendimento a ser buscado, a ser revelado? será que há alguma coisa a ser compreendida?

o mundo, que, segundo a ciência, nasceu da explosão de uma estrela numa sucessão de acasos, de erros (por isso a vida é errância), de mutações aleatórias, passados bilhões & bilhões de anos chegou onde chegou — até aqui.

será que ao mundo cabe entendimento, compreensão?…

o mundo não está aí para ser entendido, o mundo está aí para ser vivido.

o mundo não está aí para virar poesia, o mundo está aí para ser vivido — embora as coisas, no mundo, pareçam estar em estado de poesia.

o mundo não está aí para virar poesia, embora a árvore, com suas forma & cor & beleza plástica, sempre parada, aguarde em silêncio, apta a ser fotografada. o mundo não está aí para virar poesia, embora o gato preto de patinhas brancas ande sempre com seu melhor traje (o traje: a sua pelagem feita sob medida, como se um black tie). o mundo não está aí para virar poesia, embora os pássaros, em vôo sincronizado no céu, denunciem, pela perfeição dos movimentos, que ensaiaram durante horas (um ensaio sem pretensões de estréia).

o mundo não está aí para virar poesia, mas o vento orquestra uma sinfonia muda (com os sons que suscita a sua passagem), os panos — à passagem do vento — dançam pendurados nas janelas, as formigas — fingindo trabalhar — desfilam, com suas folhas verdes, alegorias de mão, e mesmo as paredes se deixam cobrir de limo & descascam voluntariamente (sem esforço contrário), em permanente exposição (como se num museu ou centro cultural), expostas às artes & artimanhas do tempo em sua casca.

o mundo não está aí para virar poesia, o mundo está aí para ser vivido — embora as coisas, no mundo, pareçam estar em estado de poesia.

a fim de que a vida vivida ganhe um brilho ainda mais vívido, à vida sem motivo & sentido:

poesia!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Metal. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Artes e Ofícios.)

 

 

se passar a vida
como um detetive
procurando o sentido
de cada palavra
que guarda
o infinito
de cada cabeça
que não passa
de uma cabeça
de fósforo
de cada estrela
mirada da janela
do apartamento
ou de um foguete
a vida se foi
e o sentido não veio

 

 

o mundo não está aí pra virar poesia
embora a árvore parada aguarde em silêncio
pronta pra ser fotografada
o gato de preto e punhos bancos
ande sempre com seu melhor traje
e os pássaros em vôo sincronizado
denunciem pela perfeição dos movimentos
que ensaiaram durante horas

o vento orquestra uma sinfonia muda
os panos de chão dançam pendurados nas janelas
as formigas
fingindo trabalhar
desfilam com suas folhas verdes
alegorias de mão
e mesmo as paredes se deixam cobrir de limo
descascam voluntariamente
em permanente exposição

LANÇAMENTO DO LIVRO “ANTÍPODAS TROPICAIS”, DE ADRIANO NUNES
maio 20, 2014

Antípodas Tropicais_Adriano Nunes_Convite

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prezados,

acima, o convite para o lançamento do mais novo rebento do poeta que, desde sempre, desde que conheci a sua poesia (e tornamo-nos amigos ao mesmo tempo), considero o mais importante da minha geração, da geração que começa a despontar na poesia: o meu queridíssimo & amado poeta das alagoas, adriano nunes!

no mês de aniversário do poeta, quem ganha o presente somos nós, leitores de poesia!

adriano nunes lança o seu mais novo livro, intitulado “antípodas tropicais“, pela editora vidráguas, comandada pela querida poeta & mestra carmen silvia presotto, no dia 28 de maio, às 11h, na editora & livraria Edufal, localizada no campus da universidade federal de alagoas, em maceió.

antípodas tropicais” conta com capa do artista plástico gal oppido, prefácio do professor & poeta alberto lins caldas, orelhas do poeta gaúcho & integrante da banda “os poETs” ricardo silvestrin, e textos críticos do poeta, filósofo & letrista antonio cicero, do professor, crítico literário, poeta & membro da academia brasileira de letras (abl) antonio carlos secchin, e do poeta & compositor arnaldo antunes.

abaixo, trechos dos textos escritos pelos poetas acima citados & vídeo com o poeta & compositor arnaldo antunes recitando um poema do livro “antípodas tropicais“, de adriano nunes.

a poesia agradece a chegada de “antípodas tropicais” & eu saúdo a chegada de adriano nunes, o meu poeta das alagoas, na minha vida & na literatura brasileira!

aos interessados em comprar o livro “antípodas tropicais“, entrar em contato com a carmen silvia presotto pelo site vidráguas (http://vidraguas.com.br/wordpress/).

beijo todos!
paulo sabino.
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“Ao ler, em Antípodas tropicais, poemas em que admiravelmente convivem espontaneidade e virtuosismo, invenção e técnica, ousadia e erudição, inteligência e sensibilidade, fiquei feliz de poder não apenas confirmar, mas reforçar, minha convicção de que se encontra, em Adriano Nunes, um poeta contemporâneo que faz juz à melhor tradição da poesia brasileira.”

(Antonio Cicero – poeta, filósofo & letrista)

 

“Se fosse um verso, Antípodas tropicais teria  sete sílabas. E é no andamento do verso curto que Adriano Nunes, neste novo livro, alcança excelentes  resultados. Nele avulta a rigorosa consciência da forma não apenas em seus sinais externos – a  consistente prática do  soneto, por exemplo – mas no domínio rítmico, na amplitude vocabular. Tudo isso, porém, ao largo do mero virtuosismo, pois Adriano conjuga a técnica a um efetivo e intenso temperamento lírico-meditativo, na insaciada  e inestancável  busca do outro, ainda que esse outro resida no próprio eu. A metalinguagem, que em muitos poetas se restringe a receitas domesticadas, em Antípodas tropicais  comparece viva e vigorosa, lançando-se sem cessar  ao ‘precipício de sentidos’,  destinação derradeira de todo poema.”

(Antonio Carlos Secchin – professor, poeta, crítico literário & membro da ABL)

 

“É impressionante a desenvoltura com que Adriano Nunes passeia pelo amplo repertório de formas, sempre com competência e intimidade no trato com a linguagem, mantendo ao mesmo tempo uma voz própria, original, cheia de belos achados.”

“Passeando com intimidade e destreza por diferentes ritmos e tons de discurso – da austeridade clássica à coloquialidade modernista, do metro preciso ao verso livre e deste às experiências mais construtivistas – , Adriano Nunes parece uma síntese impossível entre o poeta lírico e o formalista. De suas rimas raras, aliterações e inversões sintáticas, salta sempre uma surpresa, uma solução imprevista, um deslumbre sonoro-semântico que potencializa a linguagem.”

(Arnaldo Antunes – poeta & compositor)

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(vídeo do site: Youtube. Arnaldo Antunes recita “Noite avulsa“, poema de autoria de Adriano Nunes, integrante do livro “Antípodas Tropicais“, editora Vidráguas.)

RECOMEÇO
janeiro 6, 2014

Mar_Ri Mar

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o início de mais um ano: 2014.

mais um recomeço.

recomeço sempre pela palavra, como deus começou pelo verbo.

recomeço, contando o tempo (o tempo da palavra, para a música dos versos), e a palavra encontra seu par: a palavra “rimar” com a palavra “ritmar”.

da palavra, contar o seu tempo, para que ela encontre o seu devido par & realize a música dos versos: rimar & ritmar.

recomeço no mar, meu amante maior, minha fascinação derramada, como a vida veio da água (pesquisas científicas apontam que os primeiros indícios de vida no planeta vieram da água do mar), como o feto, início de todos nós, também: durante 9 meses, a imersão em ambiente aquoso (na bolsa amniótica, que protege o feto de choques térmicos & mecânicos): quando fetos, antes de andar, aprendemos a nadar.

quando fetos, primeiro, NAdar. ANdar, isto é, trocar de meio, trocar a água pela terra firme (assim como as palavras, que trocam de sentido na mudança de duas letras, da  “N” & da “A”), depois.

no início de todos nós, no começo de tudo, primeiro, NAdar. ANdar, depois.

recomeço no mar: o mar ri. ri, mar.

o mar ri ao rimar o seu azul com as belas ilhas do sul, que realçam ainda mais a beleza da paisagem.

ao ritmar, o mar ri & faz-se rimar.

recomeço em mim mesmo, no rito da passagem anual, de onde sempre parto: de onde sempre nasço, de onde sempre me invento, de onde sempre me gesto.

recomeço em mim mesmo, de onde sempre parto: de onde sempre me lanço, de onde sempre me retiro, de onde sempre me desloco, de onde sempre vou embora.

recomeçar em mim mesmo: parir & partir.

parir & partir: nascer, renascer (com as transformações operadas caminho afora) & deslocar-se sempre, propondo-se a novos & inusitados desafios.

parir & partir: nascer, renascer (com as transformações operadas caminho afora) & quebrar, fragmentar-se, despedaçar-se, propondo-se a novas & inusitadas colagens.

(parir & partir: da palavra, contar o seu tempo, para que ela encontre o seu devido par & realize a música dos versos.)

um ótimo 2014 para nós!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.)

 

 

Recomeço sempre na palavra
como deus começou pelo verbo.
Recomeço contando o tempo
e a palavra encontra seu par:
rimar e ritmar.
Recomeço no mar
como a vida
veio da água
como o feto
antes de andar
aprendeu a nadar.
O mar ri. Ri, mar. E ritmar.
Recomeço em mim mesmo
de onde sempre parto.
Parir e partir.
Sair e quebrar.

BASHÔ BAIXOU NO SAMBA-ENREDO: CARNAVAL
fevereiro 11, 2013

Cristiano Marinho & Paulo Sabino_Boitatá 2013

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e eis que a folia momesca atravessa o brasil de norte a sul, leste a oeste.

no “prosa em poema” não seria diferente.

o “samba-enredo” que aporta faz uma homenagem a matsuo bashô, o grande mestre inventor do haicai que conhecemos hoje.

bashô viveu como um guerreiro samurai durante os seus 23 primeiros anos de vida. com a morte do seu mestre, dedicou-se basicamente ao zen budismo & à poesia, recriando o haicai (com novos temas) & tornando-se um monge peregrino, viajante em busca de respostas às suas indagações existenciais.

nas suas tantas viagens, bashô dedicava-se a escrever diários, guardando, assim, as paisagens & impressões dos lugares por onde passava. “sendas de oku” é um dos mais famosos diários escritos por bashô.

dos poemas, o mais célebre é o “haicai da rã” (ou “haicai do sapo”), onde bashô descreve o salto de uma rã/um sapo (em japonês, a palavra “kawazu” pode significar tanto “sapo” quanto “rã”) num lago de água parada, produzindo, com o salto anfíbio, o movimento do que, antes, imóvel, inanimado (a água do lago), a expansão do movimento da água em círculos concêntricos:

assim como a água do lago, antes parada & depois em movimento com o salto da rã/do sapo, nossa consciência deve saltar por sobre o silêncio (mundo mudo, que nada nos diz & que, portanto, recebe a nossa interpretação acerca do que ele é) & expandir-se como expande o movimento dos círculos concêntricos na água, em sucessivas ondas de associações.

depois do mestre, outros grandes poetas japoneses dedicaram-se a transmitir o legado deixado por bashô, como os poetas kobayashi issa (1763 – 1827) & takoboku ishikawa (1885 -1912), fazendo com que o haicai atravessasse 3 séculos de existência.

baixou bashô no terreiro! baixou bashô no pandeiro! na sapucaí, carnaval, saltou o sapo a noite inteira!

um belo carnaval é o que o “prosa em poema” deseja aos senhores!

divirtam-se!

beijo todos!
paulo sabino.

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(do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.)

 

 

SAMBA-ENREDO

Desci o monte Fuji
e hoje vim cantar na avenida
a história do monge que foi soldado
no início da sua vida.
Nesta noite de esplendor,
lembro o mestre-samurai,
o maestro do silêncio
(sem lenço e sem documento)
inventor do nosso haicai.
Bashô, Bashô,
baixou Buda no terreiro.
Saltou, saltou,
saltou o sapo muambeiro.
Deixou, deixou,
nesse salto o seu mistério.
Peguei as sendas de Oku
e caí na Sapucaí.
Virei Issa e Takoboku,
há três séculos estou aqui.
Rezei a primeira missa,
na segunda me perdi,
seguindo o mestre Bananeira
como o mestre-sala
segue a porta-bandeira.
Bashô, Bashô,
baixou Buda no pandeiro.
Saltou, saltou,
saltou o sapo a noite inteira.
Deixou, deixou,
em três versos um samba-enredo:

céu de fevereiro
quem tem samba no pé
se ilumina primeiro

OS GUARDADORES
maio 17, 2012

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a seguir,
 
versos muito criativos espertos divertidos, que fazem, evidentemente, uma contraposição (bem arquitetada & bem-humorada) aos versos proferidos por alberto caeiro, célebre heterônimo do maior poeta da língua portuguesa, o genial fernando pessoa, heterônimo conhecido por sua poética sempre ligada a uma vida no interior, longe dos centros urbanos, mais perto da natureza, junto a prados & montanhas & flores & pássaros & riachos, heterônimo anti-metafísico, crente numa existência afastada dos pensamentos (o que, segundo caeiro, problematiza & complica as nossas vidas) & intimamente conectada às sensações corpóreas (tato, visão, audição, sabor, fragrância), sensações despertadas pelo convívio com as coisas mundanas (prados & montanhas & flores & pássaros & riachos), autor de um livro intitulado “o guardador de rebanhos”.
 
a seguir,
 
versos que se contrapõem aos de caeiro, mas que, ao mesmo tempo, fazem alusão ao guardador de rebanhos: “o guardador de carros”: um homem da cidade, longe da vida bucólica idealizada junto a paisagens rurais, que transita em meio a carros, ladrões de carros, gorjetas & arranhões na lataria dos veículos.
 
apesar da contraposição “cidade X campo” (o que, por si só, acaba por gerar uma divergência temática), os poemas que formam “o guardador de carros” referem-se diretamente aos poemas reunidos por alberto caiero em “o guardador de rebanhos”, havendo, desse modo, uma aproximação entre os guardadores:
 
o primeiro poema da série do guardador de carros faz menção ao poema IX do pastor português, onde dizem os versos primeiros: 
 
 
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações. 
 
 
o segundo poema do conjunto faz menção ao poema V, um clássico de alberto caeiro, que inicia já com o impactante & conhecido verso:
 
 
Há metafísica bastante em não pensar em nada.
 
 
o terceiro poema do guardador de autos faz menção ao poema XIV, onde afirma o guardador de rebanhos:
 
 
Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
 
 
o quarto poema refere-se a um outro clássico de caeiro, o célebre poema VIII, em que é narrada a vinda, em sonho, do menino jesus (peralta, muito arteiro) à terra:
 
 
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
 
 
e o quinto & último poema do guardador de carros refere-se a um também famoso poema, o de número X, do guardador de rebanhos:
 
 
“Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?”
 
“Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois (…).”   
 
 
deliciem-se com esta saborosa & esperta homenagem do poeta ricardo silvestrin ao grande mestre fernando pessoa, aproveitando para reler (aqueles que já conhecem sua obra) os poemas do pastor português, o que — todos sabem — sempre vale o tempo empregado.
 
(ricardo silvestrin, eis aqui o seu presente de aniversário.)
 
beijo em todos!
um outro, especial, no aniversariante do dia!
paulo sabino.
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(do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.)
 
 
 
O GUARDADOR DE CARROS
 
 
1
 
Sou um guardador de carros,
e eles são todos meus
no meu pensamento.
Durante as festas e espetáculos,
abandonados por seus donos,
só têm a mim,
o pastor deste rebanho.
Estão bem cuidados,
mas se uma ovelha negra
não dá gorjeta,
o meu cajado arranha.
 
 
2
 
Um carro anda sem metafísica:
um pé no acelerador,
outro na embreagem,
mão esquerda no volante,
mão direita na mudança.
E a cabeça não vai nele.
Vai sozinha
a quilômetros de distância.
 
 
3
 
Nenhum ramo é igual a outro,
mas os carros são feitos em série.
Só daqui de onde estou,
vejo quatro gols pretos
como monótonas rimas.
Mas não sou poeta.
Sou arrimo.
 
 
4
 
Meninos Jesus voltou à Terra,
e eu lhe ensinei a guardar carros.
“Tá bem cuidado, tio” — ele disse,
escondendo os pregos das mãos.
 
 
5
 
“Olá, guardador de carros!”
São os ladrões se aproximando.
“Nunca guardei carros”,
eu respondo.
“Estou aqui como os postes e as árvores.
Não vejo, não ouço, não penso.
Sem falar numa grande vantagem:
posso correr como o vento.”

UM NOVO PLANO, UM NOVO ÂNGULO: E NUNCA ESQUECER O POEMA
abril 3, 2012

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decantar os sentimentos.
 
separar, dos sentimentos, os “sedimentos” que sobram, separar, dos sentimentos, as “impurezas” que restam.
 
afinal, nem tudo que se sente é de cantar. nem tudo que se sente é para compartilhar. nem tudo que se sente é para repartir, alastrar em verso.
 
decantar o que é de cantar.
 
depois do processo de decantação, após o processo de filtragem dos sentimentos, recolher, no fundo do recipiente, o mais pesado que o ar (o resíduo que fica de um sentimento), antes que voe. 
 
recolher, no fundo do recipiente após a decantação, o mais pesado que o ar, que, apesar de ser “o mais pesado que o ar” (o resíduo que fica de um sentimento), pode voar. 
 
recolher “o mais pesado que o ar”: recolher aquilo que pesa, recolher aquilo que, por falta de leveza, incomoda, recolher aquilo que, por falta de airosidade, importuna. 
 
captar o resíduo (mais pesado que o ar) no recipiente, antes que voe (antes que seja perdido, antes que seja tarde demais), e  ampliar na microlente (do viver) o desconforto — evidente — entre a vida que se leva & a que não se sabe se virá.
 
entre a vida que levamos & a vida desejada, existe uma diferença (tremenda), evidentemente. e essa diferença (entre o desejo de uma vida & a vida como ela é) acaba por trazer um certo desconforto existencial.
 
o desconforto existencial: peso que resta no fundo do recipiente.
 
a fim de que a balança se equilibre (o desejo de uma vida X a vida como ela é), em caso de “grande” (a medida do desconsolo cabe a cada um de nós) desconforto existencial (porque algum desconforto teremos inevitavelmente; somos seres insatisfeitos por natureza), inventar um novo plano, como no cinema (plano: trecho de filme ou de gravação de vídeo feito com uma única tomada, sem cortes), inventar, como no cinema, um novo ângulo (posição da câmera em relação ao objeto em foco, em cena), inventar fotografias, inventar novos enquadramentos, como no cinema, que tudo se transforma pelo olhar.
 
o olhar & seu grande poder transformador: tudo depende do modo como enxergamos, tudo varia de acordo com a maneira que encaramos, as “cenas” do grande filme que vamos montando, plano único, sem cortes & sem direito a emendas. 
 
o olhar também é feito de escolhas, ainda que muito profundas, ainda que imperceptíveis conscientemente.
 
pode-se olhar o vôo de um pássaro no céu azul & ignorá-lo por inteiro. pode-se olhar uma flor (a forma da sua corola, determinada pelo desenho das pétalas) & não estar atento a ela. pode-se avistar o sorriso solto, espontâneo, de uma criancinha na rua & tal sorriso não significar coisa alguma.
 
o olhar é feito, sobretudo, de escolhas (conscientes ou não).
 
em prol de um novo plano-seqüência (como no cinema), e também em prol de um novo plano, isto é, em prol de uma nova proposta, de um novo propósito, de uma nova idéia, em prol de um novo ângulo (que tudo se transforma pelo olhar), não vá esquecer este poema como se esquecem os nomes, um encontro, o número do telefone.
 
não vá esquecer este poema (e pensar que o que peço é um paradoxo, já que tudo, na vida, é esquecimento. lembramos, recordamos, porque, sobretudo, esquecemos, deslembramos).
 
não vá esquecer, e tudo é esquecimento — exceto o que pulsa & impulsiona para frente…
 
fica-nos o que nos importa. fica-nos o que nos exporta.
 
(que o poema pulse & nos impulsione para frente!)
 
leve este poema consigo. guarde na carteira. cole no espelho.
 
(a gente nunca sabe quando vai precisar…)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.)
 
 
 
decantar os sentimentos
nem tudo que se sente
                             é de cantar
 
recolher no fundo
do recipiente (antes que voe)
o mais pesado
                             que o ar
 
ampliar na microlente
o desconforto, evidente,
entre a vida que se leva
e a que não se sabe
                             se virá
 
inventar um novo plano,
como no cinema, um novo ângulo,
que tudo se transforma
                             pelo olhar
 
 
 
Não vá esquecer este poema
como se esquecem os nomes
um encontro
o número do telefone
Não vá esquecer
e tudo é esquecimento
(exceto o que pulsa
o que impulsiona pra frente)
Leve este poema consigo
guarde na carteira
cole no espelho
A gente nunca sabe
quando vai precisar de um poema

MEMÓRIAS DE OUTRAS VIDAS
maio 17, 2011

na hora da morte, dizem, passa tudo num filme.

contam também que um homem, que não guardava nomes, que um homem, que o aniversário da esposa quase esquecia, um homem, que trocava o ano do cheque, como quase não tinha memória, sem saída, à hora da sua morte inventou as memórias; sem saída, um homem — que quase não tinha memória — inventou as memórias de outras vidas.
 
as memórias de outras vidas:
 
da exímia matadora de galinhas;
do capanga-feitor entediado;
do cangaceiro que, fora do cangaço, é um fracasso;
do/da babalorixá que “recebe” um santo poeta;
do pescador que é fisgado tal & qual o que acaba por fisgar;
do boiadeiro mal agourado;
do ilhéu que vira semente;
do bobo da corte que ganha a realeza;
do poeta & os seus manuscritos;
do maquinista que vira aviador;
da vendedora de flores que engana a morte;
do soldado que, na guerra, sente falta do “sentido!” mais sem sentido que até então havia escutado.
 
deliciem-se com estas memórias de vidas dispostas na vida dos versos!
 
regalem-se com estas memórias-poemas!
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.)
 
 
 
 
MEMÓRIAS DE OUTRAS VIDAS
 
 
 
1
 
Trançava as mãos
no pescoço da galinha 
até estalar.
Deixava o sangue escorrer,
limpava, esquartejava.
Perdera as contas
de quantas.
Era uma santa,
todos diziam.
Mas seu marido
morreu moço
com um laço na garganta.
 
 
 
2
 
Chibata no lombo
de nego do Congo.
Chibata na bunda
de nego quimbundo.
Sal grosso na afta
de nego da África.
 
Um dia, veio a abolição
e sem remédio pro seu tédio
matou os filhos, a mulher e o irmão.
 
 
 
3
 
No cangaço,
vivia dando cagaço,
arrebentando cabaço,
à força, no laço.
Era um macho de ferro,
de aço.
Olhava o impossível
e dizia faço.
 
Fora dali,
era um fracasso.
 
 
 
4
 
Galinha preta
na lua de prata.
Galinha crua
na encruzilhada.
Galinha cozida
na noite descida.
 
Trabalho pro bem
tem dente de alho.
Trabalho pro mal
cal, mel, sem barulho.
 
Pelo tom da receita,
o santo é poeta:
se o som é bom,
entra qualquer bagulho.
 
 
 
5
 
Puxava o peixe
e hesitava entre tirar o anzol
da boca triste
e o êxito de voltar antes do sol
com o troféu que era só seu.
Mas a boca do estômago
sempre falava mais alto.
 
À noite,
a mulher o fisgava
com uma língua de anzol.
E sua boca de peixe
dizia “não me deixe”.
 
 
 
6
 
Toca o boi
com a boca:
ê, boi!
Toda vida
pouca
tocando
até o juízo final
no matadouro.
Um dia
uma ave
de mau agouro
repetiu o refrão
com ele em coro:
ê, boi!
Morreu chifrado
por um touro.
 
 
 
7
 
Vento sul,
céu azul.
Vento norte,
chuva forte.
Vento leste
traz a peste.
 
Morava na ilha
desde que a enchente
levou sua mulher
e sua filha.
Sem gente atrás,
ao lado, à frente,
foi lá que um dia
virou semente.
 
 
 
8
 
Guizos.
Roupa xadrez.
Trocava comida
por meia dúzia
de risos.
No fim do mês,
pagava
o que fosse preciso.
E bebia o resto.
 
Até que o rei,
num lindo gesto,
criou o novo Reino
da Alegria.
E o bobo
entrou pra história
como o primeiro
rei que ria.
 
 
 
9
 
Contava sílabas
enquanto os outros
contavam dinheiro.
 
Tocava sua lira
enquanto os outros
tocavam a vida.
 
Séculos depois
acharam a sua obra
escrita pra nada.
 
E nos seus manuscritos
a vida dos outros
foi enfim decifrada.
 
 
 
10
 
Trilava o apito
e o trem
tilintava nos trilhos.
 
No vagão não se vaga.
Varava a madrugada
sem mudar a direção.
 
Quando se aponsetou,
comprou um avião.
 
 
 
11
 
Rosa azul,
celofane cor de rosa
pra melhorar
o humor do finado.
Ano após ano,
na porta do cemitério,
nem morta nem viva
juntando os trocados.
Numa noite veio a foice,
mas ela não se foi.
Vendera flores
ao pobre diabo.
 
 
 
12
 
Sentido!
O comandante exclamava,
mas ele ouvia uma pergunta:
sentido?
Já que ninguém respondia,
trezentos apoios por dia.
Até que veio a guerra,
e ele foi pagar apoio aos aliados.
Como nunca tinha sentido antes,
sentiu saudades
do comandante.
 
 
 
13
 
Na hora da morte,
ele sabia,
passa tudo num filme.
Mas é tarde demais
pra escrever.
Não guardava nomes,
quase esquecia
o aniversário da esposa,
trocava o ano no cheque.
Sem saída,
inventou as memórias
de outras vidas.

SEDE TERCEIRA
março 18, 2011

(retratos de carlos drummond de andrade & clarice lispector em sede terceira)

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depois de um tanto viver, alcançando a idade terceira, mergulha-se na terceira sede, mergulha-se na maneira terceira de matar a sede de vida.

nesta sede terceira, algumas constatações:

ser inteiro custa caro. tão caro que me endividei por não me dividir. sem maiores concessões.

vasculhando o porão da memória, parto em viagem, em expedição, para provar que já morri — algumas boas vezes —. e escavo boletins, cartas & álbuns — o retrocesso da minha letra ao garrancho, letra-moleque, na idade primeira —.

ser inteiro custa caro. uma série de dores, uma série de dissabores…

parto em expedição e, nela, vou achando o que não ansiava achar, esbarrando em objetos despossuídos de lógica, objetos que me encontram antes de qualquer pretensão minha de encontrá-los.

e concluo: tão simples a vida, tão banais as realizações, tão efêmera a estada, o tempo de vivências, que, o que fiz, cabe numa caixa de sapatos.

são muitas as memórias, apesar de efêmera a estada, e desorganizadas, sem cronologia, sem intenções de.

a verdade ordenada é uma mentira. o passado tem sentido se permanecer desorganizado.

(fujo da claridade, pois ela não é muito clara, não é objetiva, não consegue ser, e, assim, refulge a poeira.)

um autorretrato, pela falta de claridade, não seria tão fidedigno. a par desse fato, assisto à revoada de insetos das ciladas.

tantas são as relíquias envaidecidas pelo musgo do tempo, tantas as invenções da memória (quantas peças prega a memória?)…

quantas foram as miudezas (em mim) que não combinavam com o conjunto e, na falta de harmonia, abandonei num depósito em mim?

se me faltou confiança para restaurar as miudezas (em mim) — que não combinavam com o conjunto — ao convívio com diversas outras coisas à mostra em mim, faltou coragem para excluí-las em definitivo.

(as miudezas que não combinavam com o conjunto permaneceram aqui, guardadas num depósito em mim.)

não aprendemos a desaprender. se tais miudezas perduram, somos também o que estocamos. tal desperdício nos molda, tal desperdício nos forma.

não doamos nada (não aprendemos a desaprender), nem a palavra passamos adiante.

(arte poética: há várias escolas, em nenhuma se ensina, já declarou o poeta ricardo silvestrin.)

o porão, onde ficam miudezas que não combinam com o conjunto, o porão tem vida própria, e respira, e vive do que jogamos lá, do que descartamos.

tudo pode fermentar: as mais variadas & díspares lembranças, em desordem completa.

tudo pode nascer sem o mérito do grito, sem o mérito do alarde, do alarido, tudo pode nascer baixinho, quase imperceptível, no murmúrio, ou no estalar do abraço.

tudo pode nascer, ainda que quieto, ainda que entocado.

tudo pode nascer, ainda que abafado.

permitam-se à vida!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Terceira sede. autor: Fabrício Carpinejar. editora: Bertrand Brasil.) 

 

SEGUNDA ELEGIA

Ser inteiro custa caro.
Endividei-me por não me dividir.
Atrás da aparência há uma reserva de indigência,
a volúpia dos restos.

Parto em expedição para provar que já morri.
E escavo boletins, cartas e álbuns
— o retrocesso da minha letra ao garrancho.

O passado tem sentido se permanecer desorganizado.
A verdade ordenada é uma mentira.

O musgo envaidece as relíquias. Os dedos retiram as teias,
assisto à revoada de insetos das ciladas.
Fujo da claridade, refulge a poeira.
O par de joelhos na imobilidade de um rochedo.

Reviso o testamento alisando a textura,
como um gramático da seda.
Desvendo o que presta pelo som do corte.

O que ansiava achar não acho
e esbarro em objetos despossuídos de lógica
que me encontram antes de qualquer pretensão.

O que fiz cabe numa caixa de sapatos.

Colecionava talhos de madeira, bonecos
adornados com a ponta miúda do canivete.
Lá estava um dos sobreviventes, desfocado,
vizinho das medalhas escolares
e dos parafusos condoídos de ferrugem.

Um autorretrato não seria tão fidedigno.
Eu era aquela frincha de chão florido, casca e húmus.

Quantas foram as miudezas que não combinavam
com o conjunto e, na falta de harmonia,
abandonei no depósito da infância?

E se faltou confiança para restaurá-las ao convívio,
faltou coragem para excluí-las em definitivo.

Somos o desperdício do que estocamos.
Não aprendemos a desaprender.
Não doamos nada, nem a palavra passamos adiante.

O porão tem vida própria e respira
o que jogamos fora.
O que refugamos na ceia volta a nos mastigar.

Tudo pode fermentar: o forro, os passos, o odor do braço.
Tudo pode nascer sem o mérito do grito,
no murmúrio ou estalar do abraço.

Tudo pode nascer, ainda que abafado.

O MENOS VENDIDO
fevereiro 18, 2011

senhores,

esta é uma oração pela ação:

que eu nunca fique parado, perguntando que horas são.

seja sempre a hora certa, seja sempre a hora propícia, de levantar & descer o braço, de estender a perna & dar um passo.

(um passo adiante, e você não está mais no mesmo lugar.)

quando tocar a música, que eu dance. que eu saiba dançar conforme a música, e dançar bem, e que eu saiba, se necessário, propor a contradança.

e, em caso de queda,

senhor de toda ação,

que eu me levante, para, de novo, cair.

esta aqui, senhores,

a oração da hora: que eu possa, sempre, enxergar o agora, o já, o presente, que se desembrulha aos olhos, com clareza.

esteja eu eterna-mente por dentro, nunca por fora. que me adore, sempre, o mais moderno dos modernos — afinal, a modernidade, o conceito “modernidade”, casa com o conceito de “atualidade”, com o conceito de tempo presente, tempo onde eu, sempre, desejo quedar & viver, viver & quedar.

e se o senhor, senhor da hora, a quem dedico esta oração, sair um instante, se o senhor, que é o senhor da hora, portanto: o senhor do tempo, se o senhor sair um momento, então valei-me, nossa sem-hora, isto é, valei-me tempo sem hora, valei-me o tempo nulo, o tempo que não é tempo: valei-me o silêncio dos ponteiros, definitivo.

assim sendo: valei-me todo & qualquer tempo, tempo constituído de tombos & de prumos, e também valei-me a nossa sem-hora, valei-me a hora sem hora.

deste modo, pensativo,

colher um tanto de mim,

recolhido, quieto, ensimesmado: amostra de alma examinada no laboratório do poema (poesia é corte, poesia é re-corte, é re-colhimento, isto é: poesia é re-colher, é colher novamente, é colher de novo, ou seja, é colher novo. poesia é colher seres novos dentro do ser, poesia é colher pedaços dos seres que vão se moldando no cerne do ser; portanto: amostra de alma), laboratório árduo, de muita labuta.

custa muito pra se fazer um poeta.

palavra por palavra, fonema por fonema, sílaba por sílaba.

para se fazer um poeta, muito tempo gasto, muito custo; muito tempo gasto, muito custo, a fim de que benefício?

um poeta faz-se com muito custo, sem saber o lucro.

o lucro em todos os sentidos: o lucro, o vil-metal (afinal, quem paga as contas, vai ao supermercado, compra sapato às crianças?); o lucro, o ganho com o próprio poema, o ganho com o que dizem os versos, o ganho com a poesia em si (afinal, que vantagem tem o poeta em fazer poemas?).

custa muito pra se fazer um poeta.

laboratório árduo, de muita labuta.

ofício áspero, pedregoso, na utilização das palavras.

poesia desloca o discurso; deslocando-o, reposiciona-o, dando-lhe sentidos vários.

poesia: dos gêneros existentes, é o menos lido.

por ser o menos lido, um livro de poesia: o menos vendido.

um livro de poesia, por ser o menos vendido, não compromete o poeta a obrigações mercadológicas; como poesia é o gênero menos lido, ninguém faz poesia ambicionando fortuna, ninguém faz poesia objetivando faturar muito dinheiro.

poeta: dos escritores, o menos vendido.

poeta: o menos vendido ao mercado, o menos vendido às leis mercadológicas, de marketing, às leis do comércio.

um poeta se faz com sacrifício.

(um poeta é uma afronta, é uma injúria, um insulto, à relação custo-benefício.)

é preciso recolhimento, quietude, para colher a flor do poema.

é preciso um pouco de solidão, de algumas horas de silêncio, para escrever o poema.

assim como é preciso um tanto de solidão & silêncio para ler o poema.

o ofício (de ler & escrever) exige concentração.

é uma meditação às avessas — concentrar-se com a cabeça cheia de imagens & alaridos, porém, recolhido em silêncio —.

arte poética: arte-matéria feita de vida, que é feita de prótons, elétrons & nêutrons.

arte poética: todos os gêneros & ao mesmo tempo: nenhum.

arte poética: há várias escolas, mas nenhuma ensina.

(atenção: as rimas ricas, as rimas aprendidas na academia, nos salões nobres de cursos, estão cada vez mais ricas, mais pomposas, mais cheias de si, enquanto as rimas pobres, coitadas, cada vez mais pobres, cada vez mais afastadas de suas irmãs abastadas, criadas & cultivadas em palácios de luxo.)

arte poética: por mais que se contem as sílabas dos versos, isto é, por mais que os versos estejam presos a formas fixas poéticas (o soneto, o rondó), todo verso é livre, todo verso quer alçar vôo, todo verso quer alucinar, todo verso quer fazer jus à sua natureza, isento de restrições, livre de amarras.

(que assim seja.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.) 

 

ORAÇÕES INSUBORDINADAS

 

1

Senhor, esta é uma oração
pela ação
que eu nunca fique parado
perguntando que horas são
seja sempre a hora certa
de levantar e descer o braço
estender a perna
e dar um passo
cruzar e correr pro abraço
quando tocar a música,
que eu dance
quando se deslocarem,
que eu lance,
Senhor de toda ação,
humildemente te louvo,
se eu cair que levante
pra cair de novo

 

2

Senhor, esta é a oração
da hora
que eu possa sempre
enxergar com clareza
o agora
esteja eternamente
por dentro
nunca por fora
que o mais moderno
dos modernos
diga sempre
que me adora
e se o Senhor
sair um instante
valei-me, Nossa Senhora

 

Colher um pouco de si mesmo,
em silêncio,
recolhido,
amostra de alma,
examinada
no laboratório
do poema.

 

O MENOS VENDIDO

Custa muito
pra se fazer um poeta.
Palavra por palavra,
fonema por fonema.
Às vezes passa um século
e nenhum fica pronto.
Enquanto isso,
quem paga as contas,
vai ao supermercado,
compra sapato pras crianças?
Ler seu poema não custa nada.
Um poeta se faz com sacrifício.
É uma afronta à relação custo-benefício.

 

É preciso
um pouco de solidão,
algumas horas de silêncio,
para escrever o poema.
Os que contam/ cantam sílabas
tamborilam os dedos,
balbuciam versos matemáticos,
olhando para o nada.
É preciso um pouco de solidão e silêncio
para ler o poema.

 

ARTE POÉTICA

A poesia se divide
em prótons, elétrons e nêutrons.
Ou não se divide com ninguém.
A poesia é do gênero feminino,
mas também masculino e neutro.
Há várias escolas,
em nenhuma se ensina.
Como na escola de samba,
só dança quem nasce sabendo.
As rimas ricas estão cada vez mais ricas
e as pobres cada vez mais pobres.
Só os poetas continuam na mesma.
Por mais que se contem sílabas,
todo verso é livre.

O QUE É POESIA?
abril 9, 2010

bacanas,
 
o poeta edson cruz, via e-mail, enviou a vários outros poetas uma pergunta que, metaforicamente, é um tiro à queima-roupa, uma pergunta que, ao meu ver, é das mais difíceis, se não, das impossíveis, de serem respondidas:
 
o que é poesia?
 
como não existe uma “regra”, uma “receita”, para o fazer poético, as respostas são as mais variadas.
 
junto à principal, duas outras perguntas que interessam: àqueles que desejam seguir a trilha de escritor / poeta; àqueles que adoram ler, pois os bardos citam 3 poetas e 3 textos referenciais para o seu ofício poético.
 
escolhi cinco poetas dos quarenta e cinco reunidos no livreto. o bom é que posso, no decorrer do tempo, compartilhar com vocês as outras tantas respostas.
 
antes das respostas, parte do texto de apresentação do livro, com o qual concordo inteiramente.

desfrutem os frutos, os furtos poéticos das linhas anunciadas.

beijo terno em vocês,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(trecho do texto de apresentação do livro O que é poesia?)
 
 
POETAS À QUEIMA ROUPA (autor: Edson Cruz)
 
As perguntas mais ingênuas, e legítimas, são sempre as mais espinhosas e difíceis de responder. Quando você pergunta a um marceneiro o que é marcenaria, ele, quase sempre, sorri satisfeito com a possibilidade de discorrer sobre sua arte e, quem sabe, seduzir mais um neófito para seu ofício tão amado. O mesmo pode ser válido para outros artistas, por exemplo, um ator. O que é teatro?, você dispara, e ele mata a bola no peito e ainda faz várias embaixadinhas antes de responder, falastrão.
 
Ainda que todas as artes tenham a sua especificidade e complexidade, os escritores — e, particularmente, os poetas — acreditam que a sua seja a mais complexa e inescrutável de todas. Bafejados pelas musas, os escritores são os seres mais suscetíveis do planeta. E os poetas, minha turma preferida, são a essência cintilante do que denominamos escritor. E dá-lhe suscetibilidade, pois eles carregam a responsabilidade, ou a pretensão, de serem a antena da raça. E, cá pra nós, muitos realmente o são.
 
(…)
 
A poesia é de longe, pelo menos para os poetas, a linguagem de maior potência de significação (“a mais condensada forma de expressão verbal”, dizia Pound), e não é de espantar a variedade de percepções, de leituras, de idiossincrasias, de práticas que permeiam a poética contemporânea e, evidente, a sua recepção. Tão diversas como o são os próprios seres e seus interesses.
 
(…)
__________________________________________________________________________
 
(do livro: O que é poesia? autores: Vários. organização: Edson Cruz. editora: Confraria do Vento / Calibán.)
 
 
  
AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA
 
 
O que é poesia para você?
 
Poesia é o espanto transverberado.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
A mesma coisa que qualquer iniciante em qualquer matéria ou profissão. Iniciar sempre, até o fim. Ou, no caso da poesia, desconfiar dos que oferecem a receita da “verdadeira” poesia.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Poetas: O rei Davi, salmista; Camões, o lírico; Drummond.
 
Textos: A Bíblia; cartas e ensaios de Mário de Andrade; Introdução à metafísica de Heidegger.
 
 
 
ANTONIO CICERO
 
 
O que é poesia para você?
 
A poesia é o que faz de um “poema” um poema; ou, o que dá no mesmo, é o que faz de um poema um poema bom. Também se pode dizer: é a propriedade do poema enquanto poema. É a propriedade que torna um objeto — em particular, um objeto verbal — algo que, mesmo sendo inútil, mereça existir. Se fosse possível descrever essa propriedade, seria possível dar uma receita de poema. Isso, porém, é impossível. Como diz Montaigne, é mais fácil produzir poesia do que conhecê-la. “Em certa medida baixa”, afirma ele, “pode-se julgá-la pelos preceitos e pela arte [isto é, pela técnica]. Mas a boa, a excessiva, a divina está acima das regras e da razão”. É que a razão é apenas uma das faculdades humanas; ora, a poesia é produzida e apreciada com todas as faculdades humanas, inclusive as não-racionais, elevadas ao seu mais alto grau.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Acho que há diferentes caminhos. Penso, porém, que o mais importante é, em primeiro lugar, aprender a ler e apreciar poesia. E isso se faz, em primeiro lugar, através da leitura intensiva dos grandes poemas da tradição. É através deles que se sabe o que é a poesia.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Citarei Horácio, T.S. Eliot e Drummond. Digamos o poema 7 do livro IV das Odes de Horácio; o poema “East Coker”, de Four quartets, de T.S. Eliot; “Coração Numeroso”, de Alguma poesia, de Drummond. São três obras-primas. Admiro imensamente seus autores. Todos são mestres insuperáveis da forma, da sutileza, da malícia… Horácio, por exemplo, usa todos os recursos da língua, como, por exemplo, a liberdade da ordem das palavras, em latim, para multiplicar maravilhosamente os sentidos de cada verso, de cada palavra, de cada estrofe. Ele é intraduzível, de modo que aprendi a apreciá-lo tarde, quando estudei a sério o latim. Cito T.S. Eliot porque foi através dele que me imbuí, na adolescência, dos ritmos da poesia moderna. E não é necessário explicar a escolha de Drummond. Ele e Pessoa são, para mim, o máximo da poesia moderna em português, e tão grandes quanto qualquer outro poeta, de qualquer outra língua.  
 
 
 
AUGUSTO DE CAMPOS
 
 
O que é poesia para você?
 
De preferência, a poesia dos outros. E o que é poesia?
 
Respondendo à pergunta “o que é música?”, Schoenberg saiu-se com esta historinha:
 
Um cego perguntou ao seu guia: — Como é o leite?
O outro: — O leite é branco.
O cego: — E o que é esse “branco”? Me dê um exemplo de algo que seja “branco”!
O guia: — Um cisne. Ele é totalmente branco e tem um pescoço longo e curvo.
O cego: — Pescoço curvo? Como é isso?
O guia, imitando a forma do pescoço do cisne com o braço, fez com que o cego o apalpasse.
O cego: — “Ah! agora eu sei como é o leite”…
 
Bom, para não desanimar o leitor, dou duas definições de poesia de dois outros cegos:
 
Paul Valéry: “Hesitação entre o som e o sentido”.
 
Ezra Pound: “Uma espécie de matemática inspirada que nos dá equações não para imagens abstratas, triângulos, esferas, etc, mas equações para emoções humanas”.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Perseguir implacavelmente a si próprio. Jamais perseguir o sucesso.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
“Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, de Stéphane Mallarmé. Inaugurou a poesia do século 20 e continua a presidir o espaço poético-cyberal.
 
Finnegans Wake, de Joyce, panAroma das flores da fala, telescopagem vocabular, racionalidade do caos.
 
Os Cantos, de Pound, montagem-colagem-ideograma, estratégias básicas para a poesia de nosso tempo. 
 
 
 
CARLITO AZEVEDO
 
 
O que é poesia para você?
 
Algo tão generoso que às vezes até se dá ao trabalho de aparecer uma ou duas vezes num bom livro de poemas.
 
Desde a invenção do cinema ela também tem gostado de dar as suas caras na grande tela, principalmente em filmes de René Clair, Jean Vigo, ou naquele, belíssimo, de Jean Cocteau, em que Orfeu, antes de dar o primeiro passo inferno abaixo, em busca de Eurídice, pronuncia as palavras mágicas: “O espelho deveria refletir um pouco mais antes de nos devolver a nossa face”.
 
Hokusai, que sabia do que ela era feita, às vezes a colocava numa onda, num galo, numas mulheres atravessando uma ponte. 
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Sapos de verdade em jardins imaginários, como queria Marianne Moore.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Em primeiro lugar, vou avisando que é uma escolha prospectiva, e não retrospectiva. Em vez de falar do que é uma referência para o que eu fiz, vou falar do que é uma referência para o que eu quero fazer. Ah, e em vez de “explicar” a minha escolha, prefiro “ilustrar” a minha escolha, por isso, cada poeta será acompanhado por um poema de sua autoria. Lembrei agora de uma menina japonesa que vi na exposição de Miró, anos atrás, e que diante do namorado que pedia que ela lhe “explicasse” Miró, pois ele, ao fim da exposição, não tinha entendido nada, respondeu apenas que se ele já tinha visto os quadros e não entendia nada, não adiantava explicar, porque o que ele ia entender era a explicação e não os quadros.
 
Susana Thénon, a notável poeta argentina nascida em 1935, e falecida aos 56 anos. Utilizo aqui a ótima tradução feita por Angélica Freitas e publicada na Modo de usar & co digital:
 
— onde é a saída?
— desculpe?
— perguntei onde é a saída
— não
não há saída
— mas como se eu entrei?
— claro
lembro de você
e além disso a vejo
mas saída
saída não há
viu?
— mas não pode ser
vou sair por onde entrei
— não
já está muito tarde
desde as dez a entrada está proibida
e além disso o que você quer? que me façam uma
lavagem
cerebral
por deixar uma pessoa sair
pela entrada?
— escute
deve haver uma maneira de chegar à rua
— já perguntou em informações?
— sim
mas me mandaram vir aqui
— pois é
e eu estou dizendo que não há saída
— onde é o telefone?
— vai ligar para quem?
— para a polícia
— aqui é a polícia
— mas você está louco? aqui é uma sala de
concertos
— isso até uma hora
depois é a polícia
— e o que vai acontecer comigo?
— depende do delegado de plantão
se for Loiácono
pode te deixar barato
e em menos de alguns dias você está fora
— mas isso é uma loucura
onde estão as outras pessoas?
— setor de detidos
primeiro subsolo
— por que
estão fazendo
isso?
— vamos tia
não me diga que nunca foi a um concerto
 
Frank O’Hara, o incrível poeta norte-americano, morto tão jovem (aqui em tradução da poeta Luiza Franco Moreira que saiu na Inimigo Rumor 9):
 
UMA COCA-COLA COM VOCÊ
 
é ainda melhor que uma viagem a San Sebastian,
     [Irun, Hendaye, Biarritz, Bayonne
ou que ficar enjoado na Travessera de Gracia em
     [Barcelona
em parte porque nessa camisa laranja que você parece
     [um São Sebastião melhor e mais feliz
em parte porque eu gosto tanto de você, em parte
     [porque você gosta tanto de iogurte
em parte por causa das tulipas laranja fluorescente
     [contra a casca branca das árvores
em parte pelo segredo que nos vem ao sorriso
     [perto de gente e de estatuária
é difícil quando estou com você acreditar que
     [exista alguma coisa tão parada
tão solene tão desagradável e definitiva como
     [estatuária quando bem na frente delas
na luz quente de Nova York às quatro da tarde nós
     [estamos indo e vindo
de um lado para o outro como a árvore respirando
     [pelos olhos de seus nós
e a exposição de retratos parece não ter nenhum
     [rosto, só tinta
de repente você se surpreende que alguém tenha se
     [dado ao trabalho de pintá-los
                                                                      olho
pra você e prefiro de longe olhar para você do que
     [para todos os retratos do mundo
exceto talvez às vezes o Cavaleiro polonês que de
     [qualquer maneira está no Frick
aonde graças a Deus você nunca foi de modo que eu
     [posso ir junto com você a primeira vez
e isso de você se mover tão bonito mais ou menos
     [dá conta do Futurismo
assim como em casa nunca penso no Nu descendo
     [a escada ou
num ensaio em algum desenho de Leonardo ou
     [Michelangelo que costumava me deslumbrar
e o que adianta aos Impressionistas tanta pesquisa
quando eles nunca encontraram a pessoa certa para
     [ficar perto de uma árvore quando o sol baixava
ou por sinal Marino Marini que não escolheu o
     [cavaleiro tão bem
quanto o cavalo
acho que eles todos deixaram de ter uma
     [experiência maravilhosa
que eu não vou despediçar por isso estou te
     [contando
 
Bertolt Brecht (poema da antologia organizada e traduzida por Paulo César Sousa e publicada pela Editora 34):
 
A DESPEDIDA
 
Nós nos abraçamos.
Eu toco em tecido rico
Você em tecido pobre.
O abraço é ligeiro
Você vai para um almoço
Atrás de mim estão os carrascos.
Falamos do tempo e de nossa
Permanente amizade. Todo o resto
Seria amargo demais
 
 
 
RICARDO SILVESTRIN
 
 
O que é poesia para você?
 
Um texto da função poética da linguagem. Ver o meu artigo “Balanço, mas não caio”. Ali, está uma explicação clara e um pouco rápida sobre essa função.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Deve ler boa poesia e bons ensaios a respeito do tema poesia (Roman Jakobson e as funções da linguagem, Haroldo de Campos em A arte no horizonte do provável, Décio Pignatari em Comunicação poética, Octavio Paz no Signos em rotação…). Ou seja, deve se ocupar de ler bons poetas para ver o fazer dos outros e também se ocupar do pensar sobre a arte da poesia, tanto sozinho como acompanhado pelos bons pensadores / poetas / críticos. Também conta fazer cursos e/ou oficinas com bons poetas. Tudo isso para perseguir a criação de, primeiro, um bom poema. Depois, um bom poema que tenha as contribuições pessoais à contemporaneidade e, por último, se conseguir, alguma contribuição à história do gênero poético.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Fiz três trios:
 
Bandeira/ Drummond/ Quintana — esse trio foi o primeiro time que me fez entender o que é um bom poema. Comecei a escrever depois que li o Bandeira. Até hoje, ele é o poeta que mais me encanta. Equilibra invenção, ideia e sensibilidade. Uma boa leitura é essa dos 50 poemas escolhidos, seleção feita por ele, reeditada recentemente pela Cosac Naify.
 
Chacal/ Leminski/ Alice Ruiz — esse foi o segundo trio que me reabriu a cabeça. Com eles, encontrei uma linguagem mais próxima da minha geração e da minha visão de mundo. Ler o Belvedere, reunião de poesia do Chacal, lançada pela Cosac, Dois em um, com os dois livros Pelos pelos e Vice-versos da Alice, lançado recentemente pela Iluminuras, e Caprichos e relaxos, Distraídos venceremos… e tudo o que achar do Leminski. Valem também os ensaios do Leminski, as biografias que ele escreveu de Bashô, Cruz e Souza…
 
Augusto/ Haroldo/ Décio — esse trio chuta a bola para outros campos, amplia a cabeça de qualquer poeta. Ler Viva vaia do Augusto, Não, Despoesia, todos do Augusto, Poetc., Poesia, pois é poesia, do Décio, A educação dos 5 sentidos, do Haroldo. E também vale tudo o que eles lançaram de teoria e tradução.
 
E sobram ainda os simbolistas, com o quarteto Rimbaud/ Mallarmé/ Verlaine/ Baudelaire, sobram Marcial, Bashô, Issa, Ferreira Gullar, Cabral, Emily Dickinson, Benedetti, Borges…
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