POR VOCÊ, POR MIM

(Trecho da entrevista do poeta Ferreira Gullar concedida à escritora Clarice Lispector. No livro: Clarice Lispector – Entrevistas, editora: Rocco.)
 
(…)
 
Gullar, vou lhe fazer uma pergunta muito difícil que eu mesma não saberia como responder. É o seguinte: como nasce, em você, o poema, a palavra escrita?
 
— Em mim o poema quase sempre é provocado por um choque emocional qualquer. Por exemplo, quando escrevi o poema sobre o Vietnã, a coisa se deu do seguinte modo: eu acordei, comecei a ler o jornal com suas tremendas notícias sobre a guerra. À porta de minha casa havia uma feira. Quando vi aquelas pessoas se dirigindo para as suas casas, com as cestas carregadas de verduras e frutas, deu-se o choque. Eu pensei: se fosse no Vietnã aquela senhora poderia encontrar a sua casa em chamas. Eu próprio havia marcado para sair de férias, um mês depois. Pensei: num país em guerra deve ser impossível planejar a vida, marcar férias, ir ao cinema, tudo pode ser desfeito de um momento para o outro. É a insegurança total. O choque emocional já por si provoca as palavras, eu em geral não me preocupo em escolhê-las, elas jorram.
 
(…)
_________________________________________________________________________
 
acima, excerto da entrevista que se encontra na íntegra no post anterior, o “clarice entrevista gullar”.
 
abaixo, a poesia em questão, bela & emocionada como relata o poeta.
 
(o poema é bom para sempre pensarmos na maluquice, no desrespeito que é comprometermos vidas com uma ação tão devastadora & destruidora que é a vivência duma guerra.)
 
para você, para mim: a aurora & suas cores vivas. sempre.
 
beijo bom nos senhores.
paulo sabino / paulinho. 
_________________________________________________________________________
 
(do livro: Toda Poesia. autor: Ferreira Gullar. editora: José Olympio.)
 
 
POR VOCÊ POR MIM
 
A noite, a noite, que se passa? diz
que se passa, esta serpente vasta em convulsão, esta
pantera lilás, de carne
     lilás, a noite, esta usina
no ventre da floresta, no vale,
sob lençóis de lama e acetileno, a aurora,
o relógio da aurora, batendo, batendo,
quebrado entre cabelos, entre músculos mortos, na podridão
a boca destroçada já não diz a esperança,
    batendo
Ah, como é difícil amanhecer em Thua Thien.
    Mas amanhece.
 
Que se passa em Huê? em Da Nang? No Delta
    do Mekong? Te pergunto,
nesta manhã de abril no Rio de Janeiro,
     te pergunto,
que se passa no Vietnam?
 
As águas explodem como granadas, os arrozais
se queimam em fósforo e sangue
     entre fuzis
                    as crianças
fogem nos jardins onde açunenas pulsam
como bombas-relógio, os jasmineiros
soltam gases, a máquina
         da primavera
         danificada
         não consegue sorrir.
 
Há mortos demais do regaço de Mac Hoa.
       Há mortos demais
nos campos de arroz, sob os pinheiros,
às margens dos caminhos que conduzem a Camau.
O Vietnam agora é uma vasta oficina da morte, nos campos
        da morte, o motor
        da vida gira ao contrário, não
        para sustentar a cor da íris,
        a tessitura da carne, gira
ao contrário, a desfazer a vida, o maravilhoso aparelho
        do corpo, gira
        ao contrário das constelações, a vida
        ao contrário, dentro
        de blusas, de calças, dentro
de rudes sapatos feitos de pano e palha, gira
ao contrário a vida feita morte.
                                            Surdo
                sistema de álcool, gira
                gira, apaga rostos, mãos,
                esta mão jovem
        que saiba ajudar o arroz, tecer a palha. Há mortos
        demais, há mortes
                demais, coisas da infância, a hortelã, os sustos
        do amor, aquela tarde aquela tarde clara, amada,
        aquela tarde clara   tudo
                tudo se dissolve nas águas marrons
        e entre nenúfares e limos
        a correnteza arrasta para o mar o mar o mar azul
 
É dia feito em Boatafogo.
Homens de pasta, paletó, camisa limpa,
dirigem-se para o trabalho.
Mulheres voltam da feira, as bolsas cheias de legumes.
Crianças passam para o colégio.
As nuvens nuvem
e as águas batem naturalmente em toda a orla marítima.
Nenhuma ameaça pesa sobre a cidade.
                                                          As pessoas
marcam encontros, irão ao cinema, à buate, se amarão
                                                          nas praias
na cama
nos carros. As pessoas
acertam negócios, marcam viagens, férias.
        Nenhuma ameaça
pesa sobre a cidade.
Os barulhos apítos baques rumores
se decifram sem alarma. O avião no céu
         vai para São Paulo.
O avião no céu não é um Thunderchief da USAF
que chega trazendo a morte
         como em Hanói.
Não é um Thunderchief da USAF que chega
seguido de outros
         e outros
         da USAF
carregados de bombas e foguetes
         como em Hanói
que chega lançando bombas e foguetes
         como em Hanói
         como em Haiphong
incendiando o porto
destruindo as centrais elétricas
as estradas de ferro
         como em Hanói 
         como em Hoa Bac
queimando crianças com napalm
         como em Hanói
         como em Chien Tien
         como em Don Hoi
         como em Tai Minh
         como em Vihn Than
         como em Hanói
Como pode uma cidade, como pode
         uma cidade
                          resistir
 
Os americanos estão agora investindo muito no Vietnam
         O Vietnam agora nada em ouro
         e fogo
         Bases aéreas
         Arsenais
         Depósitos de combustíveis
         Laboratórios na rocha
         Radar
         Foguetes
A ciência eletrônica invade a selva
         gases novos, armas novas
         O lazy-dog
lança em todas as direções mil flechas de aço
         o bull-pup
procura o alvo com seus 200 quilos de explosivos
         o olho-de-serpente
pousa sobre uma casa e espera a hora certa de matar
O Vietnam agora está cheio de arame farpado
         de homens louros
         farpados
         armados
         vigiados
         cercados
         assustados
está cheio de jovens homens louros
e cadáveres jovens
         de homens louros
         enganados
 
Próximo à base de Da Nang
         que tudo escuta e tudo vê,
         próximo à base de Da Nang, esgueira-se
         entre árvores um homem,
         próximo à base cheia de soldados,
         metralhadoras, bombas,
         aviões, cheia
         de ouvidos e de olhos
         eletrônicos, um homem, chamado Tram,
entre as folhas e os troncos que cheiram a noite,
cauteloso se move
         entre as folhas da noite, Tram Van Dam,
         cauteloso se move
         entre as flores da morte
         Tram Van Dam
         quinze anos se move
         entre as águas da noite
         dentro da lama 
         onde bate a aurora
         Tram Van Dam 
         onde bate a aurora
         Tram Van Dam
         onde bate a aurora
         com a sua granada
         entre cercas de arame
         entre as minas no chão
         Tram Van Dam
         com o seu coração
         Tram Van Dam
         onde bate a aurora
         por você por mim
         sob o fogo inimigo
         com o grampo no dente
         com braço no ar
         por você por mim
         Tram Van Dam
         onde bate a aurora
         por você por mim
         no Vietnam
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2 Respostas

  1. Recitei esta poesia na escola. Ganhei num recital de poesia o primeiro lugar. Fiquei muito feliz mesmo de ter recitado Por Você Por Mim. Parabens ao autor pela criatividade e pela proximida da realidade exposta na mesma.
    karlosfelix@hotmail.com

    • Que bacana saber, Carlos!

      Sempre que quiser, este espaço, a morada de quem assim o deseja.

      Abraço!

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