HOMEM COMUM

janeiro 24, 2012 - 2 Respostas
 
(Na foto, a resistência na comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos — SP.)
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eu,
 
paulo sabino,
 
sou um homem comum, de carne & de memória, de osso & esquecimento.
 
ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião, e a vida sopra dentro de mim, pânica, a vida sopra dentro de mim de modo assustador, feito a chama de um maçarico (chama ameaçadora, que pode ferir), e pode, subitamente, cessar. de uma hora a outra, sem aviso prévio, assustadoramente.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
sou como você, feito de coisas lembradas & esquecidas, rostos & mãos, defuntas alegrias, flores, passarinhos, feito de facho de tarde luminosa, feito de nomes que já nem sei, feito de tudo isso misturado.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
sou um homem comum: brasileiro, maior de idade, solteiro, reservista.
 
e não vejo na vida, senhores, nenhum sentido (a vida apresenta-se como um grande & silencioso absurdo do acaso), senão lutarmos juntos por um mundo melhor.
 
determinadas agruras deveriam ser extirpadas do convívio social.
 
a poesia é rara, a poesia é incomum, é extra-ordinária, e não se encontra facilmente vidafora. por isso ela não comove, nem move, o pau-de-arara. ela, a poesia, por sua raridade, por não estar disposta por aí, não comove, nem move, a pobreza, o descaso social, a poesia não comove nem move (para fora da existência) a força mantenedora de todos os dissabores mundanos injustificáveis.
 
por isso, quero falar com os senhores, de homem para homens, apoiar-me em vocês, oferecer-lhes o meu braço, que o tempo é pouco e o latifúndio está aí, matando.
 
que o tempo é pouco e aí estão sabe-se lá quantos braços do “polvo”, braços deste sistema econômico, a nos sugar a vida & a bolsa (contendo o nosso parco & suado dinheiro).
 
homem comum, igual aos senhores, cruzo a avenida sob a pressão do imperialismo.
 
sim, sob a pressão do imperialismo: sob a pressão imperiosa exercida por homens como naji nahas, um fraudador que deve milhões em impostos aos cofres públicos, contra cerca de 1.500 famílias da comunidade do pinheirinho, em são josé dos campos (são paulo), que tentam fazer cumprir a “função social da propriedade”, prevista na constituição federal desde 1988 & no estatuto das cidades desde 2001, pressão exercida por um fraudador com o aval & o apoio do estado & sua milícia arbitrária.
 
a sombra do latifúndio mancha a paisagem (de sangue), turva as águas do mar, e a infância nos volta à boca, amarga, suja de lama & fome.
 
mas somos muitos milhões de homens comuns e podemos formar uma muralha com nossos corpos de sonho, corpos de desejo de uma vida mais justa & ajustada às necessidades de cada um, corpos de sonho & margaridas.
 
após os versos, das coisas mais GENIAIS que já ouvi:
 
a canção “brasil com p”.
 
notem que quase todas as palavras que a compõem iniciam com a letra “p”. digo “quase todas as palavras” porque apenas uma única palavra da canção não inicia com a letra “p”: irmão.
 
irmão. o que somos. o que deveríamos ser.
 
letra forte, direta, crua, na medula.
 
retrato em branco & preto do nosso brasil varonil.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Toda poesia. autor: Ferreira Gullar. editora: José Olympio.)
 
 
 
HOMEM COMUM
 
 
Sou um homem comum
               de carne e de memória
               de osso e esquecimento.
               Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
e a vida sopra dentro de mim
               pânica
               feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
                          cessar.
 
Sou como você
                feito de coisas lembradas
                e esquecidas
                 rostos e
                 mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
                 em Pastos-Bons,
                 defuntas alegrias flores passarinhos
                 facho de tarde luminosa
                 nomes que já nem sei
                 bocas bandeiras bananeiras
                                                                          tudo
                  misturado
                                       essa lenha perfumada
                                       que se acende
                                       e me faz caminhar
Sou um homem comum
         brasileiro, maior, casado, reservista,
         e não vejo na vida, amigo,
         nenhum sentido, senão
         lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
          Quero, por isso, falar com você,
          de homem para homem,
          apoiar-me em você
          oferecer-lhe o meu braço
                   que o tempo é pouco
                   e o latifúndio está aí, matando.
 
Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros 
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
                  Homem comum, igual
                  a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
                 A sombra do latifúndio
                 mancha a paisagem,
                 turva as águas do mar
                 e a infância nos volta
                 à boca, amarga,
                 suja de lama e de fome.
Mas somos muitos milhões de homens
                 comuns
                 e podemos formar uma muralha
                 com nossos corpos de sonho e margaridas.
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(do site: Youtube. canção: Brasil com p. autor & intérprete: GOG.)
 

RIO

janeiro 19, 2012 - Deixe seu recado!
 
(Rio de Janeiro, de Fevereiro, de Março, Rio de todos os meses: uma alegria pra sempre.)
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dia 20 de janeiro: dia de são sebastião, padroeiro da cidade do rio de janeiro.
 
o rio é basicamente o mar.
 
a cidade constituiu-se toda à beira-mar.
 
zona sul, zona oeste, centro, zona norte: aonde quer que se vá, o mar como companheiro de navegação.
 
o rio é basicamente o mar & amor. o rio é basicamente amor ao mar.
 
o mar & amor, amor & o mar: a palavra “amor” abriga “o mar” dentro de si, abriga o mar que abriga o rio.
 
atlanticamente amar, e ir a mar de modo atlântico…
 
o rio é basicamente o riso. alegria de morar nesta cidade.
 
eu rio pelo rio.
 
humor & amor, amor & humor: o rolar das ondas, o rolar do rio, o rolar do riso.
 
paisagens do meu delírio, paisagens em que me afogo: a baía & sua esfinge de açúcar em pedra:
 
água na boca é a guanabara. 
 
o arpoador & sua pedraria: jóia rara, linda, pedraria mais que preciosa, muitíssimo bem localizada para que se assista ao espetáculo, todo fim de tarde, da derrocada do sol águabaixo, de ângulo privilegiado. 
 
pelas curvas desse rio-paisagens, rio exuberante de belezas naturais, belezas que, de tão belas, quase arrombam a retina de quem vê, ninguém vai morrer de frio, porque, se frio houver nas curvas desse rio, é só se espriguiçar no sol que sai detrás do mar.
 
sol & céu & mar & pedras & florestas: assim o é o rio de janeiro, assim o é o rio de fevereiro, o rio de março, o rio de todos os meses do ano:
 
uma alegria na minha vida, um alarido de cores no meu coração!
 
salve a cidade maravilhosa, cheia de encantos mil!
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Belvedere [1971 - 2007]. autor: Chacal. editoras: 7Letras / Cosac & Naify.)
 
 
 
RIO
 
 
o rio é basicamente o mar
o mar e o amor
amor e mar
atlânticamente amar
 
o rio é basicamente o riso
humor amor
amor humor
para rolar de rir
 
água na boca é a guanabara
e o arpoador é jóia rara
 
pelas curvas desse rio
ninguém vai morrer de frio
porque é só se espreguiçar
no sol que sai detrás do mar

ELIS: A PRIMEIRA DAMA DA CANÇÃO

janeiro 17, 2012 - Deixe seu recado!

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O meu QUERIDO amigo & TALENTOSÍSSIMO poeta-compositor PÉRICLES CAVALCANTI me apresentou este BELÍSSIMO texto, escrito por CAETANO VELOSO, sobre a GRANDE DIVA, a SOBERANA ELIS REGINA.

Este ano a maior cantora do Brasil de todos os tempos completa os seus 30 anos de morte.

Seu desenlace existencial se deu em 19 de janeiro de 1982.

Minha mãe, a minha cabocla Jurema Armond, conta que o Brasil parou para chorar a sua partida. Ela mesma diz que ficou muitíssimo triste, abalada, com a notícia.

Eu, como toda & qualquer pessoa com o mínimo de percepção musical, sei que ELIS REGINA foi a MAIOR.

Todos sabem da minha IMENSA ADMIRAÇÃO & PREDILEÇÃO por outra diva, MARIA BETHÂNIA. Mas se pensarmos, em termos acadêmicos, o que é o canto, o que pode a voz, se pensarmos nos estudos que envolvem o instrumento vocal, Elis foi a cantora que abrigou TUDO em seu timbre, com maestria de GÊNIOS profundamente talentosos: ninguém conseguiu, até hoje, condensar tão PERFEITAMENTE técnica & emoção. Quando a ouço, tenho certeza: ela, Elis, não foi, ela, Elis, É A MAIOR.

As linhas do Caetano são LINDAS, e merecem ser lidas.

Ele fala sobre a sua relação de encontros & desencontros com Elis, salientando, sempre, os seus ENORMES carinho & admiração: “eu via Elis cantar exclusivamente para me sentir bem”, declara.

Ao final do seu texto uma frase-chave, com a qual Caetano acaba por ratificar o tom (acertado, afinado, limpo) do ser de Elis: “ela me escreveu um bilhete pedindo perdão pelo que fez com ‘Gente’”.
 
Em seu livro “Sobre as letras” (ed. Companhia das Letras), o poeta-compositor explica o episódio envolvendo a (sua) canção “Gente”:
 
“No show Transversal do tempo, Elis Regina cantava ‘Gente’ como se estivesse debochando da canção, com o arranjo servindo ao deboche, e aparecia ‘Beba Gente’ escrito atrás, como se fosse Coca-cola. (…) Um pouco antes de morrer, ela me escreveu uma carta dizendo que aquilo que ela tinha feito com a minha música em Transversal do tempo tinha sido idéia dos diretores do show, que ela não queria, que, por ela, não faria aquilo, e me pediu desculpas”. 
 
Logo após o texto de Caetano, uma das gravações de Elis que conheci ainda moleque & que me fisgou pelo pé (da cabeça) – rs.
 
Lembro-me do arrepio ao ouvi-la (a referida gravação) pela primeira vez, lembro-me da minha emoção, da beleza que se revelava.
 
Os versos contam a história duma mulher que “aparece” ao mundo, que “surge” à vida, depois de uma grande desilusão amorosa. Mulher que cresceu olhando a vida sem malícia, sem maldades, até que um cabo de polícia despertou seu coração. O policial, cabo (sua patente), fê-la apaixonar-se, para, em seguida, soltá-la na rua, abandoná-la, desprezada como um cão. Depois disso, desiludida, machucada, ferida, a mulher caiu na “orgia” (termo, antes, muito utilizado para noitadas de muita farra, de muita cantoria & bebedeira, sem a forte conotação sexual que ganhou nos dias atuais).
 
Mulher “da virada” (boêmia, mulher que apronta na noite, mal vista, inclusive, por outras mulheres), esquecida por Deus, mulher que irá cada vez mais se esmolambando, cada vez mais arrastando os seus molambos (os seus farrapos) , mulher que seguirá sempre cantando na batucada da vida.

A ela, Elis, pimenta boa de ser degustada, os meus PROFUNDOS carinho & respeito!

SALVE ELIS REGINA, a PRIMEIRA DAMA da canção!
 
Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Conteúdo Livre. autor do texto: Caetano Veloso.)

 

QUEM ENTENDE DE MÚSICA SABE QUE ELA (ELIS) É UMA DAS MAIORES QUE JÁ HOUVE


Ouvi Elis pela primeira vez vendo-a na televisão. Foi em Salvador — e nós, os baianos que chegaram ao eixão na esteira da estreia de Bethânia no Opinião, já tínhamos um esboço de visão da música popular numa perspectiva brasileira. Tive reação semelhante à que muitos tiveram: finalmente uma cantora moderna, em pleno domínio de seus recursos aparecia na cena profissional — e já embalada para alcançar massas de ouvintes. Era indubitavelmente um largo passo dado. Éramos todos, Elis e nós, esforços de criação dentro do universo exigente que foi o imediato pós-bossa nova.

Sempre conto que, na minha imaginação, Bethânia, Gal, Gil e eu faríamos algo marcante. Dos quatro, Gal e eu éramos os mais radicalmente joãogilbertianos. E eu talvez mais do que Gal. Bethânia tinha um temperamento e um talento que a levavam para além das marcas estilísticas do supercool de João. Gil, por ser o que mais era capaz de apreender os acordes e as levadas de violão do mestre, sentia-se livre para cruzar a fronteira. Gal desejava entrar cada vez mais fundo no mundo desdramatizado da bossa pura. Eu, que me julgava um observador útil, capaz apenas de contribuir com acompanhamento crítico e conversas teóricas (o que não me impedia de fazer umas musiquinhas), tinha João como paradigma e, por isso, interessava-me pelo desvelamento do ser da canção como forma. Assim, o canto e violão dele se opunham, dentro de mim, ao samba-jazz dos grupos instrumentais (ou voco-instrumentais) que se desenvolveram no Beco das Garrafas. Elis, cantando na TV, num videotape dos que chegavam de avião às províncias (ainda não havia televisão em rede), era a realização brilhante do estilo que me parecia oposto ao de João.

Mas a evidência de competência, talento e desenvoltura era mais forte do que meus esquemas críticos. O fato bruto de que alguém estivesse dominando divisões complicadas das frases rítmicas e exibindo com espontânea segurança o entendimento de cada nota cantada (o modo como ela instintivamente cuidava da afinação) era em si mesmo um acontecimento na cena brasileira, um acontecimento que me obrigava a pôr tudo em novo patamar. Bem, tudo o que eu imaginava para meus três amigos era algo que tivesse esse poder — mas por outras vias, a partir de outros elementos, sempre nascidos da atenção a João. Assim, vi uma tensão natural entre nosso projeto e o acontecimento Elis. Tive quase um sentimento de ciúme. Sobretudo me senti com maiores responsabilidades e excitado por desafios mais altos.

Nada disso nunca se desmentiu. Depois de Elis, teríamos que fazer algo mais radical. Bethânia esteve sempre fora da questão, já que ela tinha um estilo assombrosamente desenvolvido e totalmente independente da estética da bossa nova. Mas ela mal tinha se decidido pela música: havia sonhado em ser atriz, escrevia e fazia joias de metal. Sua voz e sua intensidade pessoal é que a puxaram para o canto, através do interesse despertado em quem a ouvia. O modo extrovertido, o tom expressionista, que contrastava com a sobriedade da bossa nova, tudo isso ela tinha em comum com Elis. Mas eram figuras opostas. Pôr as duas em comparação, dentro da cabeça, era como contrapor Sarah Vaughan a Edith Piaf. Mas o que acontecia era que, com Elis, eu era levado a pensar assim, em termos mundiais, considerando figuras nascentes de nossa canção com divas do grande mundo.

Bem, o ambiente de criação de música popular no Brasil estava se diversificando. Era a época de Edu — e Nara tinha aberto o leque do repertório, saindo das salas sofisticadas e indo ao morro e ao sertão. Mas, fosse Edu, Nara ou nós, todos parecíamos treinados em ambientes de teatro, cineclubes e diretórios acadêmicos. Elis era uma menina que gostava de Ângela Maria e se tornara um fenômeno infantojuvenil em Porto Alegre. A evidência de seu talento chamou a atenção de produtores que sonharam em fazer dela uma nova versão de Celly Campello, o que resultou em quatro LPs que, depois do estouro de “Arrastão”, foram banidos de sua discografia oficial — não tão diferente assim do que aconteceu com o 78 RPM de João, gravado no início dos anos 50. Seja como for, Elis vinha do mundo da música comercial, enquanto Nara , Edu e nós vínhamos dos ambientes intelectualizados.

O Beco das Garrafas e Armando Pittigliani compuseram a Elis genial que, logo formatada por Solano Ribeiro, veio a ser aquela espantosa explosão de “musician ship” que eu vi na TV.

Todos os encontros e desencontros que tive com Elis tiveram esse histórico como pano de fundo. Rogério, seu irmão, me deu de presente os quatro LPs pré-“Arrastão”, numa época em que eu, deslumbrado pelo prazer que dava assistir aos shows dessa cantora que nunca estava fora de sintonia com a música, via mais de uma vez seus espetáculos. Desde que voltei de Londres (coincidindo, em parte, com o período em que ela mostrou sua versão do cool), eu via Elis cantar exclusivamente para me sentir bem. Ela influenciou gerações de cantores, lançou multidões de autores, briguei com a “Veja” por causa do modo como essa revista publicou a notícia da sua morte (briga que nunca mais achei jeito de desfazer), e hoje a gente sabe que Björk a admira, que quem entende de música no mundo sabe que ela é uma das maiores que já houve. Ela me escreveu um bilhete pedindo perdão pelo que fez com “Gente”. E saúdo sua memória com um amor muito pessoal, particular e cheio de conteúdos peculiares.
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(autores: Ary Barroso / Luiz Peixoto.)
 
 
NA BATUCADA DA VIDA
 
 
No dia em que eu apareci no mundo
Juntou uma porção de vagabundo
Da orgia
De noite teve samba e batucada
Que acabou de madrugada
Em grossa pancadaria
 
Depois do meu batismo de fumaça
Mamei um litro e meio de cachaça
Bem puxado
E fui adormecer como um despacho
Deitadinha no capacho
Na “Porta dos Enjeitados”
 
Cresci olhando a vida sem malícia
Quando um cabo de polícia
Despertou meu coração
E como eu fui pra ele muito boa
Me soltou na rua, à-toa
Desprezada como um cão
 
E hoje que eu sou mesmo da virada
E que eu não tenho nada, nada
Que por Deus fui esquecida
Irei cada vez mais me esmolambando
Seguirei sempre cantando
Na batucada da vida
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(do site: Youtube. canção: Na batucada da vida. autores: Ary Barroso / Luiz Peixoto. intérprete: Elis Regina. áudio extraído do álbum: Elis (1974). gravadora: Universal Music.)

RASCUNHO DE VIDA: CAMINHO PARA O LIXO

janeiro 11, 2012 - 2 Respostas
 
(Morador de rua: pessoa de carne & osso, assim como eu, assim como você)
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fedendo a cigarro & a mim mesmo,
 
cheiro ruim exalado dos maus tempos em que vivemos,
 
cruzo uma avenida larga & áspera ao anoitecer:
 
sirenes, carros, vozes abafadas.
 
numa rua transversal, o cadáver de um cachorro atropelado.
 
tempos de correria, tempos de pressa, tempos de desimportância, tempos de atropelamento.
 
rodas metálicas passam em ritmo lento, fedendo a esgotos & a mim mesmo, que também exalo o esgoto, esgoto em que piso, esgoto sobre o qual montamos as nossas vidas repletas de desejos mesquinhos.
 
eu mesmo fedendo a esgotos, fedendo a um pouco de fogo do isqueiro, eu mesmo fedendo como aquela maçã podre, eu mesmo fedendo, exalando, a música estúpida destes tempos, a música burra das vontades superficiais, a cantilena dos sonhos descartáveis, música que vibra seus acordes dissonantes todas as vezes que saio da segurança da minha casa ou ao ligar a TV em determinados programas (coisa que não faço).
 
o lixo recolhido exala um cheiro nítido na calçada (cheiro de podridão, cheiro dos tempos que fedem à música estúpida), cheiro na calçada que também fede a sapatos, fede a ratos, ao suor (frio) dos neóns, a cadeiras, a notícias inúteis (sem importância no seu conteúdo) & a mim mesmo, caminhante a gravar seus passos nas calçadas & avenidas, caminhante fedendo seu cheiro sob a lua & junto a narinas (de outros caminhantes) entupidas de gás carbônico.
 
o som do motor do ônibus, com seu rugido rascante & sua contribuição de fumaça poluente, fedendo as mesmas camisas, velhas & surradas, e fedendo a mim mesmo, passageiro que sou das lotações que me transportam por ruas, ladeiras & avenidas, o som do motor do ônibus fedendo a esquinas por onde passa, esquinas que exalam cheiros que fedem a expectativas (tudo fede frente a fatos funestos) que, no entanto, acabam na próxima linha (seja da vida, seja do poema).
 
expectativas que acabam, postas fora, feito lixo.
 
lixo: aquilo que não se considera útil ou propício:
 
plásticos voando baixo, cacos de uma garrafa (pétalas cortantes sobre o asfalto).
 
balde na lixeira: lixo.
 
lixo: os sacos jogados na esquina, os sacos ao lado da cabine telefônica, restos de comida & cigarros no canteiro (feito para árvore), sem a árvore, lixo consentido por toda parte desta cidade que fede, lixo sob o viaduto que, agora, sob o viaduto, se confunde com mendigos.
 
mendigos: pessoas, seres humanos, gente de carne & osso, assim como eu, assim como você.
 
mendigos: pessoas moradoras de rua, marginalizadas, discriminadas & confundidas com lixo (por muitos) mesmo quando não sob o viaduto, mesmo quando às claras, à luz do dia.
 
os mendigos são odiados por muitos porque fedem as calçadas & porque, ainda que perceptivelmente humanos, ainda que perceptivelmente de carne & osso (assim como eu, assim como você), são confundidos com lixo.
 
num dia, um mendigo encontrado morto. morto a pauladas.
 
não há palavras que denomine a ação contínua de bater: pauladas.
 
não há palavras para pauladas.
 
quando a violência fala mais alto, toda & qualquer palavra se cala. a possibilidade de diálogo é encerrada.
 
pauladas: não há palavras.
 
não há palavras para dizer: morto a pauladas.
 
matar a pauladas um mendigo (uma pessoa, um ser humano, gente de carne & osso, assim como eu, assim como você) & seus utensílios, aniquilar a pauladas um mendigo & sua sacola, seu cobertor, sua calçada…
 
morto a pauladas.
 
àqueles que se locupletam com o caso, àqueles que se enchem de um prazer que beira o sadismo quando comentam o caso sem pistas, não compreendem que não há palavras para:
 
morto a pauladas.
 
ao falar a paulada, cala-se a palavra.
 
(pancadas não deixam espaço à troca de palavras.)
 
mendigo morto a pauladas na madrugada.
 
de manhã, poça de sangue, feridas na cabeça, e no rosto não há palavras: no rosto, as marcas dos golpes a porrete.
 
mendigo morto a pauladas: não tem conversa, não. afinal, pancadas não deixam espaço à troca de palavras.
 
mendigo morto a pauladas: não tem conversa, não. sem muito papo: a devida punição aos verdugos!
 
mais respeito à vida! menos valor à música estúpida destes tempos, menos valor aos desejos descartáveis, menos valor aos sonhos mesquinhos! mais valor à delicadeza! mais valor à cooperação mútua!
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Até agora: poemas reunidos. autor: Régis Bonvicino. editora: Imprensa Oficial.)
 
 
 
CAMINHO DE HAMSTER
 
 
Fedendo a cigarro e a mim mesmo
cruzo uma avenida
ao anoitecer
sirenes, carros
 
vozes abafadas
avenida larga e áspera
numa rua transversal
o cadáver de um cachorro
 
atropelado
rodas metálicas em ritmo lento
fedendo a esgotos e a mim mesmo
a um pouco de fogo, do isqueiro
 
fedendo como aquela maçã podre
fedendo a música estúpida
desses tempos
e a mim mesmo
 
o lixo recolhido exala
um cheiro nítido na calçada
fedendo a sapatos e a mim mesmo
a ratos, ao suor dos neóns
 
a cadeiras e a mim mesmo
a notícias inúteis e a mim mesmo
fedendo sob a lua
narinas entupidas de gás carbônico
 
o som do motor do ônibus
fedendo as mesmas camisas
fedendo a miopia e a mim mesmo
fedendo a esquinas
 
exalando cheiros
fedendo a expectativas
que no entanto acabam
na próxima linha
 
 
 
O LIXO
 
 
Plásticos voando baixo
cacos de uma garrafa
pétalas
sobre o asfalto
 
aquilo
que não mais
se considera útil
ou propício
 
há um balde
naquela lixeira
está nos sacos
jogados na esquina
 
caixas de madeira
está nos sacos
ao lado da cabine
telefônica
 
o lixo está contido
em outro saco
restos de comida e cigarros
no canteiro, sem a árvore,
 
lixo consentido
agora sob o viaduto
onde se confunde
com mendigos
 
 
 
RASCUNHO
 
 
Pauladas não há palavras
morto a pauladas não há palavras
para dizer morto
a pauladas
 
matar a pauladas
um mendigo e seus utensílios
sacola, cobertor e calçada
morto a pauladas
 
a lua em quarto minguante
verga
nuvens ásperas encarneiradas
enquanto isso aqueles que
 
se locupletam com o caso
sem pistas
não há palavras
morto a pauladas
 
a corda no pescoço?
de manhã —
poça de sangue —
feridas na cabeça
 
e no rosto
não há palavras
morto a pauladas
não tem conversa não

PASSAGEM DA NOITE

janeiro 3, 2012 - 4 Respostas
 
(Passagem da noite & a aurora dos novos tempos)
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alta noite já se ia.
 
ninguém na estrada andava.
 
no caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia.
 
e eu sinto que é noite, não porque a sombra (da noite) descesse por sobre o dia, mas porque, dentro de mim, porque, no fundo de mim, o grito, o alarido da vida, se calou, aquietou-se.
 
(bem me importa a face negra da noite, bem me leva para dentro dela a face negra da noite, e bem me importa a face negra da noite porque a face negra da noite também possui a sua importância dentro de mim, mas não são essas as razões que me fazem sentir que é noite.)
 
sinto que é noite porque, em mim, fez-se desânimo.
 
sinto que nós somos noite.
 
de fato, à noite, o organismo entende o acontecimento: à noite, o metabolismo aquieta-se, torna-se mais lento, desacelera.
 
palpitamos no escuro (o músculo oco a pulsar, sinalizando alguma vida apesar da inércia em que mergulhamos) e, assim, em noite nos dissolvemos.
 
sinto que é noite no vento, noite nas águas, noite na pedra. tudo um escuro. nada à vista.
 
a noite encobre tudo & tudo se dissolve no seu véu.
 
portanto, se a noite encobre tudo & tudo se dissolve no seu véu, de que adianta uma lâmpada? de que adianta uma única luz acesa na imensa escuridão? de que adianta uma voz, uma única voz, em meio ao silêncio noturno?
 
ainda que haja a lâmpada acesa, ainda que haja a minha voz, de nada adiantam porque é noite no meu amigo, no submarino, na roça grande. é noite em toda parte circundante.
 
vejam bem: não é morte (palpitamos no escuro), não é dor (não há sofrimento lúcido), nem paz (não há contentamento lúcido). é apenas noite, é justamente a noite, é perfeitamente a noite.
 
mas salve, olhar de alegria!
 
salve, dia que surge!
 
os corpos, que antes palpitavam no escuro, saltam do sono; o mundo, às claras, se recompõe.
 
que alegria a bicicleta que passeia!
 
existir: seja como for, a fraterna entrega do pão.
 
amar: seja como for: mesmo nas canções, a entrega do coração.
 
(na vida, existir & amar com a entrega do pão, com a entrega do coração.)
 
saltar do sono, recompor-se, e, de novo, andar: as distâncias, as cores, os cheiros, os sabores: posse das ruas; de novo, dono das paisagens que vão passando ao me ver passar (os dois lados da janela…); de novo, senhor dos caminhos que sigo percorrendo.
 
tudo que à noite perdemos se nos confia outra vez, tudo que à noite perdemos volta a ser nosso com a luz do dia.
 
obrigado, coisas fiéis, coisas que sempre retornam minhas!
 
saber que ainda há praias, florestas, sinos, palavras; saber que a terra prossegue o seu giro; saber que o tempo não murchou, que não nos diluímos, que estamos aí.
 
chupar o gosto do dia!
 
clara manhã: obrigado!
 
o essencial é viver!
 
(existir: seja como for, a entrega fraterna do pão.)
 
(existir: amar, com a entrega do coração. amar sempre, mesmo nas canções.)
 
um feliz & próspero ano que se inicia!
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A rosa do povo. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)
 
 
 
PASSAGEM DA NOITE
 
 
É noite. Sinto que é noite 
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
 
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

PASSAGEM DO ANO

dezembro 31, 2011 - 4 Respostas
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o último dia do ano não é o último dia do tempo.
 
afinal, a vida é um dia-a-dia de acontecimentos contínuos & descontínuos.
 
depois do último dia do ano, e do primeiro dia do novo ano, outros dias virão e, com os novos dias, novas coxas & ventres comunicarão o calor da vida.
 
ano novo, dia novo, fato novo: muitas bocas para beijar, muitos papéis para rasgar, viagens para fazer & tantas outras celebrações… o tempo, de tantos ocorridos, ficará repleto e, de tão repleto, não deixa espaço a outras coisas que não digam respeito à nossa própria vida.
 
o último dia do tempo (dia derradeiro, dia do adeus ao mundo) não é o último dia de tudo.
 
o dia morre & nasce todos os dias. o tempo segue sua caminhada ininterrupta. 
 
recebamos com simplicidade este PRESENTE do acaso: o merecimento de viver mais um ano.
 
meu pai morreu, meu avô também.
 
em mim mesmo muita coisa expirou, muita coisa teve o seu fim, outras coisas espreitam a morte, outras coisas, na iminência do esgotamento, mas eu, paulo sabino, estou vivo, e, durante a passagem de um ano a outro, de copo na mão, celebrando a vinda de mais um ano, de mais um dia, esperando amanhecer.
 
e, enfim, independente de quaisquer recursos usados para viver a noite última do ano que passa, surge a manhã de um novo ano, enfim, a manhã de um novo dia.
 
e as coisas, no amanhecer de um novo ano, continuam a ser coisas, limpas, ordenadas, dentro dos seus movimentos diários, cotidianos.
 
depois da vigília etílica & feliz de uma noite, o corpo, gasto, renova-se em espuma: encontro com o mar, útero às vistas.
 
todos os sentidos funcionam “alerta”, tudo ligado na eletricidade do dia & sua luz.
 
a boca está comendo vida.
 
a boca está entupida de vida.
 
a vida, sendo devorada pela boca, escorre, lambuza as mãos, a calçada.
 
a vida é gorda, oleosa, invade ilicitamente, sem permissão prévia, até o que não deseja ser tomado por sua força (a vida é sub-reptícia):
 
a vida é mortal.
 
a vida somos nós.
 
aproveitemos enquanto há tempo.
 
um feliz & próspero 2012!
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A rosa do povo. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)
 
 
 
PASSAGEM DO ANO
 
 
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com
                                                                                             [sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
 
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…
 
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
 
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve.
 
Surge a manhã de um novo ano.
 
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia. 

DE MAIS NINGUÉM

dezembro 20, 2011 - 2 Respostas
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se ela,
 
se a pessoa amada,
 
pessoa a quem dediquei o meu amor,
 
me deixou, me largou, foi-se, partiu, deu no pé,
 
a dor (da perda) é minha, só minha, não é de mais ninguém.
 
aos que possuem piedade de mim, porque carrego a dor de amar, a esses eu devolvo a piedade, a esses eu devolvo a dó.
 
não preciso da piedade de ninguém.
 
eu tenho a minha dor, que, mesmo difícil, mesmo pesada, é minha só, não é de mais ninguém.
 
se ela,
 
se a pessoa amada,
 
pessoa a quem dediquei o meu amor,
 
preferiu ficar sozinha, ou se já tem um outro bem, se ela, a pessoa amada, me deixou, seja pelo motivo que for, a dor é minha, a dor é de quem tem.
 
e só a tem, a dor de amar, quem ama.
 
eu sou um que amo.
 
se nos meus braços, ela, a pessoa amada, não se aninha, a dor é “minha dor”.
 
de mais ninguém.
 
se meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar:
 
aprenda a reagir & a ouvir o coração responder:
 
eu preciso aprender a só ser.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(autores: Arnaldo Antunes / Marisa Monte.)
 
 
 
DE MAIS NINGUÉM
 
 
Se ela me deixou, a dor
É minha só
Não é de mais ninguém
Aos outros eu devolvo a dó
Eu tenho a minha dor
Se ela preferiu ficar sozinha
Ou já tem um outro bem
Se ela me deixou
A dor é minha
A dor é de quem tem
 
É o meu troféu
É o que restou
É o que me aquece
Sem me dar calor
Se eu não tenho o meu amor
Eu tenho a minha dor
A sala, o quarto
A casa está vazia
A cozinha, o corredor
Se nos meus braços
Ela não se aninha
A dor é minha dor
 
Se ela me deixou, a dor
É minha só
Não é de mais ninguém
Aos outros eu devolvo a dó
Eu tenho a minha dor
Se ela preferiu ficar sozinha
Ou já tem um outro bem
Se ela me deixou
A dor é minha
A dor é de quem tem
 
É o meu lençol
É o cobertor
É o que me aquece
Sem me dar calor
Se eu não tenho o meu amor
Eu tenho a minha dor
A sala, o quarto
A casa está vazia
A cozinha, o corredor
Se nos meus braços
Ela não se aninha
A dor é minha dor
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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Verde, anil, amarelo, cor de rosa e carvão. artista: Marisa Monte. autores da canção: Arnaldo Antunes / Marisa Monte. participação especial: Conjunto Época de Ouro. gravadora: EMI.)
 

AO DOBRAR UMA ESQUINA, A DEVORAÇÃO DA PAISAGEM

dezembro 15, 2011 - 2 Respostas
 
(Paulo Sabino em devoração da paisagem.) 
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a sombra, como uma carícia, toma o meu corpo inteiro e se refina, e torna-se mais requintada, ainda mais fresca, ao toque dos dedos & lábios do vento.
 
sensação refrescante, confortável, feliz.
 
a mente se ergue, comovida, diante de um estar a que aspira.
 
a mente também deseja a vivência de um sombreado-carícia acompanhado do vento & seu frescor.
 
a mente se ergue comovida diante de um estar a que aspira, mas que é contrário às condições em que habita.
 
afinal, a mente trabalha o obscuro, o que corrói, o que faz sofrer, a mente trabalha o que, se não bem dosado, pode aniquilar.
 
na mente, não só o vento-brisa, que acaricia. na mente, ventos se enfrentam de todos os lados e as sombras são outras — sombras que impedem a visão.
 
incertezas, dúvidas, medos, hesitação, apreensão: tudo isso fabricado pela mente, sombras que impedem a visão.
 
incertezas, dúvidas, medos, hesitação, apreensão: um desabrigo (total) que nos impõe a disciplina, o rigor, o hábito, de construir o nosso próprio clima — se pegamos a tempestade e fazemos com que passe, permitindo a vinda de tempos melhores, ou se transformamos qualquer chuvinha no pior dos temporais.
 
somos nós os responsáveis por construir o nosso próprio clima — se vento, se ventania, se vendaval.
 
na construção do meu clima, devorar paisagens é de suma relevância.
 
o mar, o rio, o bicho, a flor, a montanha, o céu, o arvoredo, o casario, o desenho das nuvens, o vôo dos pássaros, o homem que passa, tudo isso me desperta — cores que ultrapassam distâncias, sugestão de texturas nas paisagens que desnudo sem pudor.
 
de repente, o que é só paisagem — diante das retinas — se contrai ao ver irromper, ao ver surgir, de algum lugar, a fera.
 
a fera: a mente, que entope a paisagem de significados que de nada servem.
 
ou que, pelo menos, servem (os significados) a quem os cria: é assim que a fera-mente realimenta a sua fome, é assim que a fera-mente reinventa o seu estar no mundo, contra o desabrigo (incertezas, dúvidas, medos, hesitação, apreensão) que nos abriga.
 
que saibamos construir o nosso próprio clima, bem devorando as paisagens que nos cercam & nos cabem.
 
beijo todos!
paulo sabino.  
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(do livro: Margem de uma onda. autor: Duda Machado. editora: Editora 34.)
 
 
 
AO DOBRAR UMA ESQUINA
 
 
a sombra como uma carícia
toma o corpo inteiro e se refina
mais ainda ao toque dos dedos
e lábios do vento
 
a mente se ergue comovida
diante de um estar a que aspira
mas tão contrário às condições
em que habita
 
onde ventos se enfrentam de todos
os lados e as sombras
são outras
— que impedem a visão
 
um desabrigo que nos
impõe a disciplina
de construir
nosso próprio clima
 
 
 
DEVORAÇÃO DA PAISAGEM
 
 
À esquerda, o morro. Logo
adiante casas, o arvoredo
vário. Um pouco abaixo,
a estrada, o riacho.
 
Cores que ultrapassam distâncias,
sugestões de textura
entre vegetação e vento;
o olhar que erra e se prolonga
em busca de sua moradia.
 
De algum lugar,
diante das retinas,
a fera irrompe
e de pronto,
a paisagem se contrai.
 
Já é presa,
repasto de significados
com que a fera
realimenta sua fome.

LOUVAÇÃO A OXUM

dezembro 9, 2011 - Deixe seu recado!
 
(Paulo Sabino & uma das suas maiores paixões: água)
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ontem,
 
8 de dezembro,
 
a minha amada amiga-irmã geórgia victor, a minha flor da paraíba, me lembrou que era dia de oxum, que, segundo a mitologia afro-brasileira, é uma das esposas de xangô, rainha dos rios & das fontes, guardiã da fertilidade & da maternidade, orixá que acho dos mais lindos.
 
pelo seu dia, 8 de dezembro, em sua homenagem, orarei.

orarei a oxum, que ADORO oxum.
 
oxum: água que faz crescer as crianças, dona da brisa de lagos, corpo divino sem osso nem sangue: corpo liqüefeito, límpido, cristalino, corrente.

oxum é água que aparta a morte, cuida para que a morte não nos capture.

oxum, o seu corpo liqüefeito, melhora a cabeça ruim, cabeça doente, cabeça mais preocupada em ter, cabeça que me desinteressa.
 
oxum: bela mãe da grinalda de flores, flores aos seus pés, à beira dos seus riachos, alegria da minha manhã.

oxum: onda bendita, que inunda a casa do traidor. orixá das melhoras existenciais.

 água: se há uma coisa em comum entre toda & qualquer parte do organismo humano é a necessidade de água  para realização das suas funções. somos constituídos, em média, de 60% desse líquido.

por tudo isso: oxum eu bendigo na boca do dia (oxum que eu adoro).

oxum: rica de dons. riqueza dos rios. senhora das águas.
 
oxum que chamei, oxum que não chamei, a todas as oxuns: a minha saudação & o meu profundo respeito!
 
que saibamos cuidar do que ainda nos resta de oxum.
 
saúdo minha mãe, sereia das águas doces!
 
(abaixo, um poema-canção LINDO em sua homenagem, acompanhado do áudio com a canção.)

beijo todos!____________________________________________________________

(do encarte do cd: Olho d’água. artista: Maria Bethânia. autor dos versos: Ordep Serra. gravadora: Universal Music.)

 
LOUVAÇÃO A OXUM 
 
Kerê-ô
Declaro aos de casa que estou chegando
Quem sabe venha buscar-me em festa
 
Orarei a Oxum
Que adoro Oxum, sei que sim
Xinguinxi comigo

Oxum que cura com água fresca
Sem gota de sangue
Dona do oculto, a que sabe e cala
No puro frescor de sua morada
Oh, minha mãe, rainha dos rios
Água que faz crescer as crianças
Dona da brisa de lagos
Corpo divino sem osso nem sangue

Orarei a Oxum
Que adoro Oxum, sei que sim
Xinguinxi comigo

Eu saúdo quem rompe na guerra
Senhora das águas que correm caladas
Oxum das águas de todo som
Água da aurora no mar agora
Bela mãe da grinalda de flores
Alegria da minha manhã

Orarei a Oxum
Que adoro Oxum, sei que sim
Xinguinxi comigo

Ipondá que se oculta no escuro
De longe me chega a cintilação
De seus cílios
Oxum é água que aparta a morte
Oxum melhora a cabeça ruim
A-yê-yê, orarei
Bendita onda que inunda a casa do traidor

Orarei a Oxum
Que adoro Oxum, sei que sim
Xinguinxi comigo

Oxum eu bendigo na boca do dia
Oxum que eu adoro
Rica de dons
Riqueza dos rios
Oxum que chamei
Que não chamei
Adé-okô
Senhora das águas

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 (do site: Youtube. canção: Louvação a Oxum. intérprete: Maria Bethânia. música: Roberto Mendes. letra: Ordep Serra.)
 

FUTUROS AMANTES

dezembro 8, 2011 - Deixe seu recado!
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só,
 
de frente para o mar,
 
ouvindo o seu lento & duradouro canto,
 
observando o seu sempre movimento de chegada & partida,
 
sou levado a pensamentos imprevisíveis.
 
de olhos liqüefeitos, de repente, não mais que de repente, estes versos à boca:
 
“não se afobe, não / que nada é pra já / o amor não tem pressa / ele pode esperar em silêncio”.
 
carregava uma tristeza. não pensava em outro amor. e esses versos me fizeram despertar para um sentimento gostoso, confortável, de apaziguamento.
 
como que dizendo a mim:
 
“paulo sabino,
 
“não se afobe, não, que nada é para ’já’, não se afobe, não, que nada é exatamente para ‘agora’, para ‘este instante’. na vida, existe a espera; as coisas não estão dispostas no mundo ao meu bel-prazer, as coisas não estão dispostas no mundo ao bel-prazer de ninguém.
 
“muito menos o amor.
 
“por isso,
 
“não se afobe, não, paulo sabino, que nada é para ‘já’. 
 
“o amor, este não tem pressa, ele pode esperar; esperar, por exemplo, num fundo de armário, esperar, por exemplo, na posta-restante (‘indicação que se escreve no envelope de uma carta para significar que ela deve permanecer na repartição do correio até que a reclamem’ — dicionário aurélio), o amor pode esperar milênios & milênios, no ar, sem ser captado, em silêncio absoluto.
 
“milênios & milênios no ar: passado tanto tempo, criando a distância existente entre os antigos impérios & os dias atuais, passado tanto tempo, viajo, imagino, suponho: o rio de janeiro sendo invadido por este mar, que agora miro, e transformando-se numa cidade submersa, feito a lendária ilha de atlântida. por sobre a cidade do rio submersa em mar, novas civilizações. mais tempo passado. os escafandristas do futuro, então, virão explorar a minha casa, a casa de todos que habitavam a cidade submersa, os escafandristas do futuro virão explorar minha casa, meu quarto, minhas coisas, minha alma, desvãos…
 
“os escafandristas do futuro levarão aos sábios futuros todo o material recolhido nas expedições, e esses sábios, em vão, tentarão decifrar: o eco de antigas palavras, fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos — vestígios de estranha civilização, civilização com os seus pertences até então milênios & milênios no ar, sem serem captados.
 
“os vestígios resgatados da estranha civilização (fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos) perdurarão nas civilizações futuras, assim como perduram diversos textos & poemas de impérios antigos na civilização que hoje se vivencia.
 
“já que as coisas, de alguma forma, podem perdurar milênios & milênios no ar, não se afobe, não, paulo sabino, que nada, no mundo, é para logo, é para já.
 
“amores (as suas histórias), estes serão sempre amáveis, amores serão sempre encantadores, sempre afáveis, sempre lisonjeiros, amores serão sempre merecedores de amor, amores serão sempre dignos de serem amados, e, por essa característica que os amores contêm (a de serem sempre amáveis), futuros amantes de civilizações futuras, quiçá, futuros amantes de civilizações futuras, talvez, amar-se-ão, sem saber nem sequer suspeitar, com o amor que eu, um dia, através de cartas, poemas, textos variados, deixei para os que amo.
 
“é, paulo sabino, não se afobe, não, mantenha-se sereno, tranqüilo, que nada é para já…”
 
beijo todos!                                                                                                                                                                   
____________________________________________________________
 
(do livro: Tantas palavras. autor: Chico Buarque. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
FUTUROS AMANTES
 
 
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
 
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
 
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
 
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
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(do site: Youtube. canção: Futuros amantes. autor & intérprete: Chico Buarque.)
 
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