SABER-SE UM NÃO SABEDOR
LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS
queridos e queridas,
quando bati os olhos neste poema, mais precisamente, depois de lê-lo e de reler o seu título, cinco mulheres lindas surgiram-me de imediato.
tratam-se de grandes amigas, por quem possuo o mais alto sentimento de amor. são daquelas “para o que der e vier”, com suas peculiaridades, suas especificidades, todavia, com características bem semelhantes: mulheres fortes, ágeis, sempre solícitas, que “estão na chuva para se molharem”, no entanto, magicamente, também com um lado que me parece frágil, muy delicado, necessitado de cuidados, cuidados que este preto se disponibiliza a oferecer sempre que precisam, que precisarem; e todas as cinco — foi exatamente esta característica que me levou a elas em pensamento — são APAIXONADAS por gatos: maria cristina martins (a minha crisca), sabrina guerghe, lígia julianelli, cris alice resende e júlia selma. o título das linhas que lhes envio clarifica que a lição aprendida foi ensinada por um felino.
o poema trata da eternidade do tempo transitivo, ou seja, fala da eternidade do tempo que nos cabe, da eternidade do tempo que é nosso, que é eterno por perdurar EXATAMENTE a nossa existência, posto que vida, posto que caminho a caminhar, posto que trilha a trilhar, apenas, somente, enquanto vivo.
portanto:
vivamos as nossas eternidades!
vivamos enquanto há tempo!
vivamos enquanto vivemos!
esta é a nossa única possibilidade concreta, não se esqueçam.
beijo em vocês!
o carinho de sempre,
paulo sabino / paulinho.
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(autor: Ferreira Gular. livro: Muitas vozes. editora: José Olympio)
LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS
Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade
O tempo fora
de mim
é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
— dura eternamente
enquanto vivo
E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)
ORAÇÃO AO TEMPO
F. PESSOA SOBRE F. NIETZSCHE
Por isso, para ilustrar o que escrevi, trago trechos de três textos do genial Fernando Pessoa, apresentados a mim pelo meu super “guru” Antonio Cicero, algumas verificações do bardo, com as quais concordo inteiramente, sobre o pensador em questão.
De: PESSOA, Fernando. “Antônio Botto e o ideal estético em Portugal” (1922). In: Textos de Crítica e de Intervenção. Lisboa: Ática, 1980.
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“O ódio de Nietzsche ao cristianismo aguçou-lhe a intuição nestes pontos. Mas errou, porque não era em nome do paganismo greco-romano que ele erguia o seu grito, embora o cresse; era em nome do paganismo nórdico dos seus maiores. E aquele Diónisos, que contrapõe a Apolo, nada tem com a Grécia. É um Baco alemão. Nem aquelas teorias desumanas, excessivas tal qual como as cristãs, embora em outro sentido, nada devem ao paganismo claro e humano dos homens que criaram tudo o que verdadeiramente subsiste, resiste e ainda cria adentro do nosso sistema de civilização.”
De: PESSOA, Fernando. “Prefácio de Ricardo Reis”. In: Páginas íntimas e de auto-interpretação. Lisboa: Ática, 1996.
Não é assim, suficientemente. As teorias de um filósofo são a resultante do seu temperamento e da sua época. São o efeito intelectual da sua época sobre o seu temperamento. Outra coisa não podia suceder (ser).
Assim, pois, a filosofia de Friedrich Nietzsche é a resultante do seu temperamento e da sua época. O seu temperamento era o de um asceta e de [um] louco. A sua época no seu país era de materialidade e de força. Resultou fatalmente uma teoria onde um ascetismo louco se casa com uma (involuntária que fosse) admiração pela força e pelo domínio. Resulta uma teoria onde se insiste na necessidade de um ascetismo e na definição desse ascetismo como um ascetismo de força e de domínio. Donde a assumpção da atitude cristã da necessidade de dominar os seus instintos, tornada aqui – mercê da contribuição fornecida pela loucura do autor – a necessidade de dominar toda a espécie de instintos, incluindo os bons, torturando a própria alma, o próprio temperamento (noção delirante).”
De: PESSOA, Fernando. Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1966.
O NÁUFRAGO NÁUGRAFO
PROEMA = PROSA EM POEMA
DITA A RAZÃO SUPREMA
NUANÇAS DA MANOBRA 1
O PAISAGISTA DOS VERSOS
tão incrivelmente linda
como você dizia
escrevia os poemas que escrevia
e eu entendo que não levássemos tão a sério os poemas que ela
tão incrivelmente linda
escrevia
sacando de dentro de uma bolsa ácida com pins coloridos e motivos op
os menores lápis de cor que vimos em toda a vida
para improvisar
a qualquer hora e sobre qualquer superfície
os poemas que ela escrevia
nós dizíamos que não havia mesmo nada ali
além do pitoresco
nada mesmo
ao menos para dois rapazes passados dos trinta
bebericando café entre desespero e risos explosivos
indo e vindo de países diversamente destruídos
e equilibrando entre os dedos
as moedas contadas
e o fim do amor
e com vontade contrárias e confusas
de deslocamento
e invisibilidade
mas refletidos no espelho de um mesmo café em Berkeley
e tendo sim provavelmente toda a razão
ao dizer que não havia mesmo nada ali
quando ela escrevia os poemas
sempre os mesmos
que ela escrevia com aqueles dedos que nos impressionavam
cheios de anéis de pedra bruta
e aqueles olhos
verde-rã
não havia nada ali
a não ser talvez um homem
sempre o mesmo
que reencontrava enfim uma garota
sempre a mesma
e dizia sou eu
e sempre uma revoada fantástica de flores repetia sim veja é ele
e no fim das contas uma
sempre a mesma
garota concordava sim sim é você mesmo e todos os seus colares
só para depois tornarem a se perder um do outro
como uma espécie de outra mágica revoada
e isso sim havia
em todos
em absolutamente todos os poemas dela
tão incrivelmente linda sim
e lá se vão doze
ou treze anos
e eu simplesmente nunca
os/a
consegui esquecer