SABER-SE UM NÃO SABEDOR

Novembro 25, 2009 - Leave a Response
pessoas,
 
o que vejo pode ser considerado uma verdade? como reter a verdade no olhar? por que nasci brasileiro? por que moro no rio de janeiro? para onde a gente vai, andando pelo mundo? para onde o mundo vai? por que estou, sou, aqui e agora? a que fins atenderia?
 
são perguntas que, como a cantora e responsável pelas linhas que seguem, não sei responder. simplesmente não sei.
 
gosto de cantar esta perspectiva, a de não saber, a de não entender inúmeras coisas, porque é um tapa na cara de quaisquer grandes arrogância ou prepotência que tentem aproximação.
 
clarice lispector diz no seu livro a paixão segundo g.h.:
 
Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
 
deste modo, em meio a tantas incertezas, neste breu, afirmo, certo, claro: vou sem rumo, vou seguindo, vou vivendo.
 
e que cada um de nós viva a sua própria vida, procure-a: cada um sabe dos gostos que tem, sabe das suas escolhas, das suas curas, dos seus jardins.
 
sejamos felizes e façamos felizes!
 
beijo bom e terno,
o preto.
 
(se puderem, procurem e conheçam a canção. é lindíssima.) 
________________________________
 
(extraído do cd: Vanessa da Mata. artista: Vanessa da Mata. gravadora: Sony Music.)
 
Onde ir (versos: Vanessa da Mata)
 
Eu não sei o que vi aqui
Eu não sei para onde ir
Eu não sei por que moro ali
Eu não sei por que estou
 
Eu não sei para onde a gente vai
Andando pelo mundo
Eu não sei para onde o mundo vai
Neste breu vou sem rumo
 
Só sei que o mundo vai de lá pra cá
Andando por ali
Por acolá
Querendo ver um sol que não chega
Querendo ter alguém que não vem
Não vem
 
Cada um sabe dos gostos que tem
Suas escolhas, suas curas
Seus jardins
De que adianta a espera de alguém?
O mundo todo reside
Dentro, em mim
Cada um pode com a força que tem
Na leveza e na doçura
De ser feliz

LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS

Novembro 23, 2009 - Leave a Response

queridos e queridas,
 
quando bati os olhos neste poema, mais precisamente, depois de lê-lo e de reler o seu título, cinco mulheres lindas surgiram-me de imediato.
 
tratam-se de grandes amigas, por quem possuo o mais alto sentimento de amor. são daquelas “para o que der e vier”, com suas peculiaridades, suas especificidades, todavia, com características bem semelhantes: mulheres fortes, ágeis, sempre solícitas, que “estão na chuva para se molharem”, no entanto, magicamente, também com um lado que me parece frágil, muy delicado, necessitado de cuidados, cuidados que este preto se disponibiliza a oferecer sempre que precisam, que precisarem; e todas as cinco — foi exatamente esta característica que me levou a elas em pensamento — são APAIXONADAS por gatos: maria cristina martins (a minha crisca), sabrina guerghe, lígia julianelli, cris alice resende e júlia selma. o título das linhas que lhes envio clarifica que a lição aprendida foi ensinada por um felino.
 
o poema trata da eternidade do tempo transitivo, ou seja, fala da eternidade do tempo que nos cabe, da eternidade do tempo que é nosso, que é eterno por perdurar EXATAMENTE a nossa existência, posto que vida, posto que caminho a caminhar, posto que trilha a trilhar, apenas, somente, enquanto vivo.
 
portanto:
 
vivamos as nossas eternidades!
vivamos enquanto há tempo!
vivamos enquanto vivemos!
 
esta é a nossa única possibilidade concreta, não se esqueçam.
 
beijo em vocês!
o carinho de sempre,
paulo sabino / paulinho.
_________________

(autor: Ferreira Gular. livro: Muitas vozes. editora: José Olympio)
 
LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS
 
Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
      finita
      da minha precariedade
 
O tempo fora
de mim
            é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
— dura eternamente
    enquanto vivo
 
E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)

ORAÇÃO AO TEMPO

Novembro 19, 2009 - 2 Responses
Moças, rapazes,
 
Esta oração é a única que, há um bom tempo, professo. E com fervor (rs).
 
Isto porque, como bem escreveu o poeta Casimiro de Brito (http://prosaempoema.wordpress.com/2009/10/09/fragmentos-para-o-dia-mundial-da-poesia/), a minha religião é a poesia, que, no fundo, é uma anti-religião.
 
Adoro cantar esta oração porque, nos seus versos, todos os pedidos que faço, vida afora, ao maior de todos os deuses: o Tempo. Deus inventivo, contínuo, entidade sem ente, etéreo, compositor de destinos, tambor de todos os ritmos: a este deus peço, sempre, o prazer legítimo e o movimento preciso, isto é, o movimento necessário para que o prazer legitimado, autêntico, por direito, me alcance, de modo que o meu espírito ganhe um brilho definido, e eu, portanto, consiga espalhar e colher benefícios. Esse é o mote da minha trilha, do meu caminhar, para que a minha trilha, o meu caminhar, me valha, pois quando eu tiver saído para fora do círculo deste deus, será como se nem eu nem ele, o Tempo, existíssemos um para o outro. Como bem delineou Ferreira Gullar num poema intitulado Lição de um gato siamês:
 
E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)
 
Quero fazer valer o meu Tempo, o único a existir, AGORA, JÁ.
 
Numa canção em parceria com Tomás Improta e Vinícius Cantuária, Caetano Veloso afirma:
 
Ser feliz
O melhor lugar é ser feliz
O melhor é ser feliz
Mas
Onde estou
Não importa tanto aonde vou
O melhor é ter amor
 
(Letra de Aracaju
 
Eu tenho que concordar com esses versos. O melhor lugar é ser feliz. É lutar, batalhar por isso, de olho, sempre sempre sempre, na delicadeza, no carinho e no respeito ao outro.
 
Que o Tempo seja ainda mais Vivo no som dos nossos estribilhos!
 
Um beijo em todos,
O preto.
_________________
 
(do livro Letra Só. autor: Caetano Veloso. organizador: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
ORAÇÃO AO TEMPO
 
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo
 
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo
 
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo
 
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo
 
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo
Quando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo
 
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo
 
O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo
 
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei, nem terás sido
Tempo Tempo Tempo Tempo
 
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
 
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo Tempo Tempo Tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo Tempo Tempo Tempo

F. PESSOA SOBRE F. NIETZSCHE

Novembro 18, 2009 - 3 Responses
Senhores,
 
Os trechos seguem porque, de vez em quando, ao conversar com queridos amigos, estes suscitam vários dos meus questionamentos e questões.
 
Às vezes, percebo que um leitor “leigo”, ao ler um clássico ou autor reconhecido pela “intelectualidade acadêmica”, tende, pode tender, a concordar com TUDO o que dizem as linhas, por sentir o peso do respeito que o “nome” pode ter, como se tudo o delineado fossem dogmas, conceitos com os quais deve-se concordar, como se os conceitos, no livro, fossem sagrados, como se o livro fosse um “livro sagrado”, qual a Bíblia para os cristãos.
 
Só que devemos ter em mente, ao ler qualquer autor, que ele, por mais brilhante, inteligente e divisor de águas que seja, em determinados aspectos pode cometer alguns equívocos, enunciar idéias que mereçam refutação. É o caso, ao meu ver, de quase todos, senão de todos, os autores das Ciências Sociais e Filosofia.
 
Nietzsche, grande filósofo, extraordinário pensador, não foge à regra. Contribuiu muito com a sua obra, defendendo o uso da razão crítica e a extinção do que se projete de forma obscurantista, como ocorre com as religiões cristãs e seus preceitos. Todavia, ao mesmo tempo, junto com as infinitas e imprescindíveis contribuições e achados, eu, por exemplo, lendo alguns trechos de textos ou textos inteiros, possuo uma penca de críticas e reavaliações, uma série de discordâncias.
 
O que pretendo com este texto é somente alertá-los para o fato de que, por mais bacana, respeitado, unânime e bem intencionado o autor, a sua obra deve ser lida com o senso crítico em puro estado de atenção, porque ninguém está aqui, neste mundo, para escrever “bíblias”, isto é, para escrever livros que não possam ser contestados (contestados completamente ou em determinadas idéias), “livros-dogmas”. Afinal, como reter a verdade no olhar?  
 

Por isso, para ilustrar o que escrevi, trago trechos de três textos do genial Fernando Pessoa, apresentados a mim pelo meu super “guru” Antonio Cicero, algumas verificações do bardo, com as quais concordo inteiramente, sobre o pensador em questão. 

Entendam, queridos: não estou, nem desejo, não é esta a intenção, diminuir a importância de nada nem de ninguém, e sim salientar que as leituras, por mais pertinente o assunto, devem ser feitas com cuidado e senso crítico aguçados. Isso tem a ver com a formação nossa, com a construção nossa, com a estruturação das nossas personas.
 
Ronaldo Pelli, meu queridíssimo amigo, meu amado, o Nietzsche, na minha cuca, devo a você, devo a uma conversa que mantivemos há um bom tempo sobre ele. 
 
Beijo em todos!
O preto.
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“‘A alegria’, diz Nietzsche, ‘quer eternidade, quer profunda eternidade’. Não é nem nunca foi assim: a alegria não quer nada, e é por isso que é alegria. A dor, essa, é o contrário da alegria, como a concebia Nietzsche: quer acabar, quer não ser. O prazer, porém, quando o concebemos fora da relação essencial com a alegria ou com a dor, como o concebe o autor deste livro, esse, sim, quer eternidade; porém quer a eternidade num só momento”.

De: PESSOA, Fernando. “Antônio Botto e o ideal estético em Portugal” (1922). In: Textos de Crítica e de Intervenção. Lisboa: Ática, 1980.
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“O ódio de Nietzsche ao cristianismo aguçou-lhe a intuição nestes pontos. Mas errou, porque não era em nome do paganismo greco-romano que ele erguia o seu grito, embora o cresse; era em nome do paganismo nórdico dos seus maiores. E aquele Diónisos, que contrapõe a Apolo, nada tem com a Grécia. É um Baco alemão. Nem aquelas teorias desumanas, excessivas tal qual como as cristãs, embora em outro sentido, nada devem ao paganismo claro e humano dos homens que criaram tudo o que verdadeiramente subsiste, resiste e ainda cria adentro do nosso sistema de civilização.”

De: PESSOA, Fernando. “Prefácio de Ricardo Reis”. In: Páginas íntimas e de auto-interpretação. Lisboa: Ática, 1996.

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“O próprio Nietzsche asseverou que uma filosofia não é senão a expressão de um temperamento.
Não é assim, suficientemente. As teorias de um filósofo são a resultante do seu temperamento e da sua época. São o efeito intelectual da sua época sobre o seu temperamento. Outra coisa não podia suceder (ser).
Assim, pois, a filosofia de Friedrich Nietzsche é a resultante do seu temperamento e da sua época. O seu temperamento era o de um asceta e de [um] louco. A sua época no seu país era de materialidade e de força. Resultou fatalmente uma teoria onde um ascetismo louco se casa com uma (involuntária que fosse) admiração pela força e pelo domínio. Resulta uma teoria onde se insiste na necessidade de um ascetismo e na definição desse ascetismo como um ascetismo de força e de domínio. Donde a assumpção da atitude cristã da necessidade de dominar os seus instintos, tornada aqui – mercê da contribuição fornecida pela loucura do autor – a necessidade de dominar toda a espécie de instintos, incluindo os bons, torturando a própria alma, o próprio temperamento (noção delirante).”

De: PESSOA, Fernando. Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1966.

O NÁUFRAGO NÁUGRAFO

Novembro 16, 2009 - 2 Responses
navegantes,
 
o poema abaixo é um dos que intitulo como “da minha vida”. desde que o li e o fisguei, tenho-o como grande mote para o que me proponho com as palavras: captar o máximo de significados que elas possam me fornecer. o título das linhas sugere essa busca: “náufrago náugrafo”.
 
náufrago é o indivíduo que se afunda, que caminha para as profundezas do mar. logo, o “náugrafo” nada mais é do que o “náufrago da grafia”, isto é: “náugrafo” é aquele que se propõe a ir fundo nas linhas, a ir fundo na grafia, na escrita, é o indivíduo que se dispõe a soçobrar nos significados, nas entrelinhas que se desdobram dos textos, não importanto se prosa ou poesia.
 
genialmente, paulo leminski, um dos meus grandes mestres, poeta por quem possuo a mais alta afinidade, cria um neologismo ao trocar de posição duas letras da palavra que o origina: náufrago “náugrafo”.
 
sabiamente, utiliza sua observação da palavra “atlântico” para falar do homem que funda nas funduras do ser o seu mundo e a sua lei.      
 
isto, senhores, é o que almejo de mim: ser, sempre, um náufrago náugrafo, o náufrago da grafia, o homem que vai fundo, que vai nas profundezas deste oceano de palavras que me faz e refaz, num molde à deriva de tudo e de todos.
 
paulo sabino: homem que se deseja lento, vago e profundo, feito o oceano: a—tlââââântico… 
 
contemplem esta arquitetura em versos, vale a mirada!
 
beijo em vocês, senhores.
paulo sabino / paulinho.
________________________
 
(do livro: distraídos venceremos. autor: paulo leminski. editora: brasiliense.)
 
 
O NÁUFRAGO NÁUGRAFO
 
      a letra A a
funda no A
      tlântico
e pacífico com
      templo a luta
entre a rápida letra
      e o oceano
lento
 
      assim
fundo e me afundo
      de todos os náufragos
náugrafo
      o náufrago
mais
      profundo

PROEMA = PROSA EM POEMA

Novembro 16, 2009 - Leave a Response
pessoas,
 
uma das razões para que este espaço tenha o nome que tem se deve a existência destes versos. 
 
“prosa em poema” é o título que cabe à minha proposta: a de clarificar por que as linhas escolhidas me tocam, me sensibilizam. os meus textos tentam desnudar a razão de ser disto tudo na minha existência. portanto, é uma espécie de diálogo, de prosa, que travo com as linhas, com os textos e poemas postados; é a prosa que enxergo nos versos, o diálogo que desenvolvo com eles.
 
[proema = prosa + poema = prosa em poema]
 
poesia comunica, significa, por mais hermética, encerrada em si. pois que: verde, o sinal vermelho: isto é: o sinal que (a)parece fechado, sinal de impedimento, vermelho, na verdade, está aberto, está verde, visto que a poesia se propõe sempre às brechas, se dispõe sempre a um diálogo, a uma conversa, a uma prosa, com o seu leitor.  
 
beijo bom em todos.
o preto.
__________________________________
 
(do livro: distraídos venceremos. autor: paulo leminski. editora: brasiliense.)
 
PROEMA
 
      Não há verso,
tudo é prosa,
      passos de luz
num espelho,
      verso, ilusão
de ótica,
      verde,
o sinal vermelho.
 
      Coisa
feita de brisa,
      de mágoa
e de calmaria,
      dentro 
de um tal poema,
      qual poesia
pousaria?

DITA A RAZÃO SUPREMA

Novembro 13, 2009 - Leave a Response
queridos,
 
este poema segue porque expõe a razão de eu enviar-lhes, sempre, os textos que me encantam os olhos.
 
chegam a vocês os escritos por causa, primeiramente, da afinidade que sinto possuir com eles. esta afinidade faz-me crer que, de alguma forma — por eu ser afim ao que é dito —, o dito é como se: meu. como se todos os textos enviados falassem por mim, assim como, quando escrevo, falo e assino por todos. como se todos os autores que ad miro, todos os autores em que me espelho, de fato, fossem qual espelhos (espelhos diáfanos). como se, enviando a vocês as linhas encantadas, assinasse os meus heterônimos famosos:   antonio   arnaldo   paulo   pablo   sophia   eucanaã   gilberto   mário   manuel   carlito   armando   vinícius   carlos   clarice   fernando   cecília   eduardo   duda   alice   alex   josé   joão   ou   caetano. somos irmanados enquanto nos desejamos.
 
acredito neste poder, o da: “compilação poética”. esta é a nossa desdita, o nosso fa(r)do, pedindo-nos demais a nós, poetas, que seja dita(o).
 
portanto: tenho dito (rs).
 
beijo em todos vocês.
paulo sabino / paulinho.
_____________________
 
DITA (autor: antonio cicero. livro: guardar. editora: record.)
 
[a Dedé Veloso]
 
Qualquer poema bom provém do amor
narcíseo. Sei bem do que estou falando
e os faço eu mesmo pondo à orelha a flor
da pele das palavras, mesmo quando
 
assino os heterônimos famosos:
Catulo, Caetano, Safo ou Fernando.
Falo por todos. Somos fabulosos
por sermos enquanto nos desejando.
 
Beijando o espelho d’água da linguagem,
jamais tivemos mesmo outra mensagem,
jamais adivinhando se a arte imita
 
a vida ou se a incita ou se é bobagem:
desejarmo-nos é a nossa desdita,
pedindo-nos demais que seja dita.

NUANÇAS DA MANOBRA 1

Novembro 12, 2009 - Leave a Response
meninos & meninas,
 
para vocês, uma poesia que revela uma nuança da poética da querida e admirada cláudia roquette-pinto.
 
tal característica já foi levantada aqui, na publicação do poema “sítio” (http://prosaempoema.wordpress.com/2009/09/25/sitio/), que é a guinada surpreendente que dão alguns dos seus versos. de repente, sem que se espere, as linhas mudam a sua prosa radicalmente, e o que, antes, seguia para um determinado ponto, numa manobra inteligente, rápida, sagaz, muda de direção e segue para outro caminho. ocorre, assim, a quebra (e queda) repentina do clima antes instaurado nos versos.
 
notem abaixo: na primeira parte do poema, clima de romance, de total harmonia. perdido, de atenção e carinho, o olho de um no olho do outro; os amantes na mesma paisagem, confiantes, felizes. de súbito, a mudança brusca da paisagem: onde, antes, a harmonia, o rio calmo, agora, na segunda parte do poema, o efeito da tromba d’água, que rasga, desaba, na floresta; raízes desventradas, arrancadas, esfaceladas, e crateras onde o rio antes espalhava seu riso. tudo, repentinamente, seco, estranho e vazio. interrompido o pulso, o bater do coração, o relacionamento extinto, perdido, o fim.
 
o rumo está livre, pessoas. manobrem em direção à poesia, pisem fundo e entrem com tudo!
 
beijo grande nocês todos!
paulo sabino / paulinho.
_______________________
 
(do livro: margem de manobra. autora: cláudia roquette-pinto. editora: aeroplano)
 
sem título
 
para S.
 
Perdido:
o plano de vôo,
a planta do terreno,
o olho engatado no outro,
palavras que não foram a esmo
(as bocas diziam o mesmo
que o coração, fosforescente, no escuro).
Sem reparo,
a concha das mãos sobre as minhas,
entre os lençóis o amor
ou a anestesia, sobre o meu
seu corpo emborcado,
na mesma paisagem, confiante.
Que rasga, desaba,
pior que a floresta depois da tromba d’água,
raízes desventradas,
crateras onde antes o rio espalhava seu riso
— tudo tão estranho e vazio,
sob o olho congelado desta lua sem alma.
Perdido.
Interrompido o pulso,
perigosamente.

O PAISAGISTA DOS VERSOS

Novembro 11, 2009 - Leave a Response
pessoas,
 
abaixo, um poema-presente que me foi endereçado pelo próprio autor, que está lançando livro inédito de poesias.
 
mais uma vez, o bardo confirma uma característica sua, que serve justa à sua poética: a de paisagista dos versos. 
 
suas linhas vão esboçando uma tela de acontecimentos, pintados com tinta lírica & pinceladas precisas, que articulam, além das paisagens que vão se desnudando aos olhos, os sentimentos despertados em quem aprecia as tais paisagens.
 
uma menina, incrivelmente linda, escrevendo poemas pitorescos com os sempre mesmos fatos, que não diziam muito aos rapazes com mais de trinta anos, com desejos divergentes e confusos, com vontades de deslocamento e invisibilidade, rapazes que equilibravam nos dedos umas poucas moedas e o fim do amor. 
 
toda a gravura tão lindamente delineada, tão belamente bosquejada, que não apenas a menina, não somente os versos que a menina escrevia: também agora, carlito azevedo, poeta-pintor de paisagens poéticas, além da menina incrivelmente linda e seus poemas pitorescos que comunicavam os sempre mesmos fatos, este poema, seu, que nunca conseguirei esquecer.
 
beijo em todos!
um outro enorme em você, poeta!
paulo sabino / paulinho.
_________________________________
 
(autor: Carlito Azevedo / livro: Monodramas)
 
GAROTA COM XILOFONE E FLORES NA TELEGRAPH AV.

Quando ela
tão incrivelmente linda
como você dizia
escrevia os poemas que escrevia
e eu entendo que não levássemos tão a sério os poemas que ela
tão incrivelmente linda
escrevia
sacando de dentro de uma bolsa ácida com pins coloridos e motivos op
os menores lápis de cor que vimos em toda a vida
para improvisar
a qualquer hora e sobre qualquer superfície
os poemas que ela escrevia
nós dizíamos que não havia mesmo nada ali
além do pitoresco
nada mesmo
ao menos para dois rapazes passados dos trinta
bebericando café entre desespero e risos explosivos
indo e vindo de países diversamente destruídos
e equilibrando entre os dedos
as moedas contadas
e o fim do amor
e com vontade contrárias e confusas
de deslocamento
e invisibilidade
mas refletidos no espelho de um mesmo café em Berkeley
e tendo sim provavelmente toda a razão
ao dizer que não havia mesmo nada ali
quando ela escrevia os poemas
sempre os mesmos
que ela escrevia com aqueles dedos que nos impressionavam
cheios de anéis de pedra bruta
e aqueles olhos
verde-rã
não havia nada ali
a não ser talvez um homem
sempre o mesmo
que reencontrava enfim uma garota
sempre a mesma
e dizia sou eu
e sempre uma revoada fantástica de flores repetia sim veja é ele
e no fim das contas uma
sempre a mesma
garota concordava sim sim é você mesmo e todos os seus colares
só para depois tornarem a se perder um do outro
como uma espécie de outra mágica revoada
subindo do chão da vida
e isso sim havia
em todos
em absolutamente todos os poemas dela
tão incrivelmente linda sim
e lá se vão doze
ou treze anos
e eu simplesmente nunca
os/a
consegui esquecer

 

COISA EM SI

Novembro 9, 2009 - 4 Responses
bacanas,
 
o poema abaixo aponta para as questões abordadas no post anterior, o “negra grega”. como escrito nele, não há identidade cultural que não seja formada por mesclas e misturas. cultura encerrada em si mesma, imaculada, pura, intocada, não existe.
 
tudo tende, pende, depende. (que bom!)
 
beijo em todos,
paulo sabino / paulinho.
 
_____________________________________________________________________________
 
(extraído do livro ET Eu Tu. autores: arnaldo antunes e marcia xavier. editora: cosac & naify.)
 
 
(Arnaldo Antunes. Sem título.)
 
coisa  em  si
 
não  existe
 
 
 
tudo  tende
 
pende
 
depende
 
 
 
o  mar  que  molha
 
a  ilha  molha
 
o  continente
 
 
 
o  ar  que  se
 
respira  traz
 
o  que  recende
 
 
 
coisa  em  si
 
não  existe
 
 
 
tudo  é  rente
 
tangente
 
inerente
 
 
 
pedra
 
assemelha
 
semente
 
 
 
sol  nascente:
 
sol  poente
 
 
 
coisa  em  si
 
não  existe
 
 
 
mesmo  que
 
aparente
 
 
 
coisa  em  si
 
coisa  só
 
partida  do  seu
 
próprio  pó
 
 
 
sem  sombra
 
sobre
 
a  parede
 
 
 
sem  mar
 
gem
 
ou  afluente
 
 
 
não  existe
 
coisa  assim
 
 
 
isenta
 
sem  ambiente
 
 
 
não  há  coração
 
sem  mente
 
 
 
paraíso
 
sem  serpente
 
 
 
coisa  em  si
 
inexiste
 
 
 
só  existe
 
o  que  se
 
sente